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Enquanto Isso, No Mundo Lá Fora…

Antes de ter filho, ficava um pouco entediada quando encontrava meus amigos com filho que só falavam em bebes, crianças, fraldas, psicologia infantil, e por aí vai … pois bem, nem precisam dizer que eu sei - estou fazendo a mesma coisa! Não porque goste tanto assim do assunto, mas cá para nós, como estou trabalhando como mãe 7 dias da semana, meus assuntos ficam um pouco limitados. Mas hoje vou falar de nossas experiências com a(s) reforma(s) das casas (sim, já são várias agora), que dariam bom enredo para novela.

A casa número um é a casa em que moramos. Sempre tem um conserto aqui e ali, mas estamos sem planos de vendê-la por algum tempo – eu gosto da casa (com piso rangendo e tudo) e adoro o bairro de Capitol Hill. Se Paula achar que o mundo é um espelho de nosso bairro, ela vai crescer com a noção de que 60% dos casais do mundo são gays e 90% das pessoas têm tatuagem. Vai cair em choque cultural quando for visitar o Brasil.

A casa número dois foi a que colocamos à venda antes de Paula nascer. Pois bem, ainda está à venda. Tivemos uma oferta já no primeiro final de semana, mas o negócio deu para trás. Desde então, várias pessoas interessadíssimas, mas nenhuma oferta. Já baixamos o preço para $949,995 (se alguém estiver interessado em fazer oferta, favor não esquecer os $995). Os dois papais orgulhosos estão indignados que uma casa tão maravilhosa, uma preciosidade arquitetônica, ainda não esteja vendida, mas vender casa leva tempo, ainda mais se você não quiser sair no prejuízo.

A casa número três, a da escritura enrolada, finalmente saiu. Está na fase do projeto e temos um inquilino morando lá para ajudar a reduzir os custos mensais. Depois que o projecto estiver pronto, precisamos de todas as aprovações da prefeitura, o que deve levar alguns meses. Espera-se que a casa número dois esteja vendida até então, ou não vai haver dinheiro para a reforma. Bem, ao menos está alugada.

Mas vamos falar da casa mais interessante de todas, a casa número quatro. Sim, a essa altura estamos endividadíssimos com quatro casas. Essa foi comprada em short sale e levou uns três meses até o processo terminar; recebemos a chave na sexta passada. Os donos da casa, que são indianos, já não estavam mais morando lá porque o filho deles tinha leucemia e não podia ficar na casa, que já era antiga e tinha problemas típicos de casas antigas, como pintura de chumbo. Mas o tio dele estava morando lá. Até aí tudo bem. Contudo, o banco que ia nos emprestar o dinheiro implicou que tínhamos que consertar umas coisinhas antes deles concederem o empréstimo, e consequentement antes de recebermos a chave da casa (o dia do “closing”), e foi aí que o negócio degringolou.

O contractor (e parceiro no bom sentido de Eduardo) foi na casa na quarta-feira antes do closing para fazer os tais consertos. Para sua surpresa, o tio não deixou ele entrar alegando, entre outras coisas, que ele era mentiroso e que ninguém tinha falado com ele desses consertos. A essa altura, ficamos um pouco preocupados com a situação – será que esse tio vai sair mesmo da casa na sexta, dia de recebermos a chave? A essa altura, o agente do vendedor já estava chateadíssimo com o cliente e se recusando a falar com ele. O que entendemos da história é que se tratava de briga de família, indiana ainda por cima, que em termos de drama se equivale às famílias brasileiras. Finalmente conseguimos autorização para o contractor ir na quinta fazer os consertos. Chegando lá, para sua surpresa, não percebeu nenhuma movimentação de mudança – nada de caixas, gente empacotando, nada de nada. E aí, esse tio vai sair? Começou uma corrida frenética para descobrir se o tio sairia na sexta. O banco estava exigindo que a compra da casa fosse fechada na sexta meio-dia. O dono da casa já estava exasperado com o tio problemático, mas garantiu que o tio sairia. A essa altura, nós queríamos provas concretas que a casa estaria desocupada, daí Eduardo marcou de encontrar com nosso corretor e o dono da casa na sexta, 11:30 da manhã, para se certificar que a casa estava vazia. Chegando lá, o dono não tinha a chave e teve que chamar um chaveiro para abrir a porta. Para a surpresa de todos … a casa estava vazia, exceto por pouquíssimas coisas! Suja, mas vazia.

A essa altura, o dono aproveitou o chaveiro e trocou todas as fechaduras da casa. Afinal de contas, não se brinca com tio encrequeiro. A compra da casa foi fechada. Lá para às quatro da tarde, Eduardo foi informado que a polícia foi chamada à casa.  Acontece que o tio queria as pouquíssimas coisas que tinha deixado para trás e ficou um pouco chateado de descobrir que a chave dele não funcionava. Ao invés de ligar para o sobrinho atrás da chave, coisa que qualquer pessoa sensata nesse mundo faria, chamou a polícia. Daí foram Eduardo, o contractor e o dono da casa para recepcionar o tio, que aparentemente só queria mesmo pegar as coisas dele e ir embora. Eduardo, coitado, ficou traumatizado e anunciou que não quer saber de comida indiana por algum tempo ;-)

O Que Vamos Fazer Hoje?

Esse é um ano de muitas novidades. Não só ter um filho, que por si só seria A NOVIDADE, mas também por todas as outras coisas que envolvem ter um filho. Como, por exemplo, a licença maternidade. Estou de licença por 12 semanas e só vou retornar ao trabalho dia 20 de junho. Nunca fiquei tanto tempo em casa sem ser ou estudando ou trabalhando (trabalhando fora, deixemos claro, porque estou trabalhando de mãe tempo integral), e posso dizer que tem sido bem interessante.

Ficar em casa em licença maternidade é bem desestressante. Minha rotina se resume a: acordar de manhã, dar Paula para minha mãe para o turno dela para eu poder resolver umas coisinhas/curtir um tempinho para mim (ir ao médico, academia, cortar o cabelo, pagar contas), ajudar a aprontar o almoço, escolher algum lugar para passear à tarde para sairmos de casa, voltar e começar a pensar no jantar, Eduardo chega e ficamos um pouco com Paula, jantamos, ficamos uma horinha conversando e depois vou dormir para pegar meu turno com Paula às duas da matina. Claro que no meio das funções acima tem o “dar a mamadeira de Paula, trocar a fralda de Paula, interagir um pouco com Paula na medida do possível para um bebe tão pequeno e colocar ela para dormir”, o que leva uma boa parte do dia se você considerar que ela come de 3 em 3 horas. Como se vê, ninguém enchendo o saco no trabalho, nada de trabalhar finais de semana em julgamento … o que me leva à conclusão que trabalho é uma grande fonte de stress na vida das pessoas, e olhe que eu considero o meu trabalho bem tranquilo. O meu stress do dia a dia vem de Eduardo, que mantém um certo contato com o mundo lá fora que está cada vez mais estranho para mim, e de certa forma transmite preocupações que me parecem distantes nesse momento. Resumindo, tem sido muito gostoso passar esse tempo em casa, curtindo meus pais e minha filha.

A parte ruim da licença maternidade? É bem desestressante. Não ando entediada em casa, longe disso, estou ocupada o dia inteiro e mal tenho tempo para tomar banho, quanto mais assistir TV. Mas eu gosto de acordar de manhã, me arrumar e sair de casa para trabalhar, ver outras pessoas e ouvir (e por incrível que pareça, ter) outros problemas que não sejam “a fórmula de Paula só tem em marcado tal e temos que ir lá hoje porque está acabando” ou “Paula se arranhou no rosto, é bom cortarmos logo a unha dela” ou até mesmo coordenar as visitas de amigos a Paula. Sinto falta do trabalho e hoje tenho plena convicção que esse negócio de ser mãe tempo integral não é para mim. Contudo, suspeito que no dia 20 de junho vou ter uma opinião diferente ao acordar pela manhã, ir para o trabalho e ficar longe da minha princesinha o dia inteiro.

Por fim, e aproveitando que o Dia das Mães está chegando, vou extender minha eterna admiração para as mulheres (e homens, como não?) que trabalham na profissão de criar filho tempo integral. Não é fácil – não há recompensa financeira e muitas vezes nenhum reconhecimento. Afinal de contas, filhos adolescentes não são  muito famosos por gratidão à dedicação dos pais ;-)

Paula Vai a Vancouver

Final de semana passado fomos a Vancouver encontrar com minha irmã, que está passeando pelo Canadá. Apesar de já termos ido a Vancouver várias vezes, essa viagem foi um pouco diferente por conta do fator Paula, que com 4 semanas de vida já estava fazendo sua primeira viagem internacional. Seria nosso primeiro grande passeio com ela, e estávamos curiosos/apreensivos de como as coisas seriam. No final, foi tudo ótimo.

Paula está numa idade onde tudo funciona por ”ciclos” – acorda, come, troca a fralda e dorme, depois acorda, come, troca a fralda e dorme, e por aí vai por 24 horas. Se você souber se ajustar nesses ciclos (por exemplo, sair logo após a troca de fralda quando ela começou a dormir), você tem umas 3 a 4 horas de tranquilidade. Claro que às vezes o negócio desanda e ela começa a chorar do nada, sem nenhum motivo aparente, mas em 95% das vezes as coisas funcionam bem se você respeitar o ciclo dela. E foi assim que passeamos, íamos jantar em restaurantes e tudo mais, e ela dormindo como um anjo. Acho que Paula herdou o “travel genes” dos pais, e fiquei bastante animada de fazer mais viagens com ela.

E por falar em Paula, as coisas têm melhorado bastante, e parte disso vem do fato de termos decidido aproveitar o momento presente. Se há algumas semanas atrás eu estava desejando do fundo do coração que ela estivesse maiorzinha e dormisse a noite toda para não termos que acordar de madrugada, hoje já acho que quando ela passar a dormir a noite inteira será ótimo, mas que em compensação haverá outros problemas. Suspeito que cada fase tem seus altos e baixos (exceto a adolescência, que tem menos baixos e mais baixos), então talvez seja mais vantajoso focar nas partes boas de cada fase. No fundo, acho que é isso que todos os pais fazem, do contrário ninguém sairia do primeiro filho, não é mesmo? ;-)

Paula pronta para a viagem!

 

Eduardo, Paula, minha irmã e o namorado

 

Mariana e eu

O Pediatra e a Lactant Consultant

Mulheres americanas prestes a virar mães dão o maior valor a duas coisas: parto normal ao invés de cesárea (isso quando não batem o pé que querem um parto natural, sem anestesia) e amamentação. Não discordo das mamães americanas – parto normal é melhor em termos de recuperação do que cesárea e amamentação é importante. Mas discordo de toda a dor da consciência que acompanha as mamães que precisam fazer cesárea ou não podem amamentar.

Eu tive problemas para amamentar como já expliquei no post anterior, tanto que fui a uma lactant consultant (pessoa especializada em amamentação), que recomendou que eu usasse a bombinha até o seio sarar, para depois voltar a amamentar. O problema agora é que eu viciei na bombinha e pouco dou de amamentar para Paula, e isso por dois motivos – primeiro porque tenho medo de ferir o seio de novo com ela amamentando, e depois porque se eu tirar com a bombinha eu vejo o quanto está saindo e posso complementar meu leite com a fórmula, e daí ter uma ideia de quanto leite ela toma por dia. E, claro, não menos importante para uma mãe que já se sente inadequada, tem o fato de que dar de mamadeira permite uma “divisão” do trabalho. Claro que amamentar cria todo aquele laço especial entre mãe e bebe, mas amamentar 24 horas por dia, a cada 3 horas, requer muita dedicação de mamães adequadas. Dar de mamadeira é super rápido e eficiente; amamentar, por outro lado, leva tempo, até porque ela dorme e usa o seio de chupeta, o que não ajuda no processo de recuperação. E aqui em casa já temos um esquema de “turnos”: Eduardo fica com ela a partir de 9 da noite, quando eu vou dormir, eu pego o turno de 2 da manhã, que é quando ela acorda de novo para comer, e minha mãe pega o turno de 6 de manhã, para daí eu poder tirar um cochilo para compensar a noite mal dormida. Esse esquema ficaria difícil se eu fosse a única pessoa a alimentar Paula.

Bem, você não seria uma lactant consultant se você não desse o maior valor à amamentação. De fato, a maior parte dessas lactant consultants são pessoas bem atenadas aos processos naturebas relacionados a ter filhos: importantíssimo o parto normal ao invés de cesárea, importantíssimo contato pele a pele com o bebe, importantíssimo segurar e abraçar o bebe, muitíssimo importatíssimo amamentar etc.

O pediatra, por outro lado, tem outras preocupações. Quando fomos à primeira consulta de Paula, ele ressaltou duas providências importantíssimas que a lactant consultant nem mencionou: primeiro, começar um “college fund” para pagar a universidade dela; depois, fazer um testamento para nomear um filho de Deus para tomar conta dela caso os dois batam as botas e, claro, deixar dinheiro o bastante para ela cursar a universidade (ou viajar pelo mundo, que me parece mais divertido do que cursar universidade). Amamentação? Muito legal se você puder amamentar, mas bebes que tomam fórmula se viram muito bem, obrigado, então que eu não me preocupasse nem um pouco com isso. De fato, disse ele, nenhum college application pergunta se você amamentou ou tomou fórmula quando bebe. Quanto tempo amamentar? No máximo 20 minutos (no total!), senão ela acaba fazendo seu seio virar hamburger, o que foi exatamente o que ela fez comigo (nas palavras dele). Temos um gato, alguma providência que devemos tomar? Não se preocupe, disse ele, que ela não vai machucar o gato.

Eu sou uma pessoa prática, então não deve ser surpresa para ninguém que eu me identifiquei mais com o pediatra do que com a lactant consultant. Paula toma leite materno e fórmula, então considero que ela tem uma alimentação completa. E de fato, o pediatra falou que se fosse para amamentar o tempo todo, que avisasse porque daí ele teria que dar um suplemento de vitamina D para ela, o que é desnecessário se ela tomar fórmula.

Pobre Paula, mal tem consciência do tipo de mãe que arranjaram para ela :-)

Paula, Semana Dois

Gente, para alguém tão pequeno, um recém-nascido é uma canseira só! As coisas estão melhorando, pouco a pouco, mas eu estava para arrancar os cabelos nos primeiros dias de tanto desespero. Perguntas do tipo será que algum dia eu vou conseguir dormir 7 horas ininterruptas?, será que eu jamais viajarei de novo?, será que minha vida jamais voltará aos eixos? passam por minha cabeça diariamente.

Pois bem, chegamos em casa no domingo, dia 27 de março. Desafio número 1: amamentação. Amamentar dói no início, então não achei anormal que meios seios estivessem doendo, mas daí quando o bico do peito começou a sangrar e eu via a hora da amamentação como tortura, comecei a achar que tinha algo de errado. Pobre Paula, eu só conseguia associar minha filha com dor.  Fomos numa lactant consultant (pessoa especializada em amamentação) dois dias depois e ela  recomendou eu tirar o leite com a bombinha e dar de mamadeira até o seio sarar. O bom de tirar o leite com a bomba é que você pode ver o quanto sai, e daí que eu descobri que não tinha leite o bastante (há mais de dez anos atrás eu fiz cirugia de redução de mama, e já sabia que minha produção de leite poderia ser afetada pela cirurgia). Foi quando passamos a suplementar com a fórmula, e assim resolvemos o problema número um e parcialmente o problema número dois.

Problema número dois: a hora de dormir. Pois bem, recém nascido dorme o dia inteiro, mas não consegue dormir por longas tiradas de tempo, tendo que comer de duas em duas horas, ou, se você tiver sorte, de três em três horas. Isso já era esperado, mas nos primeiros dias ela tinha a maior dificuldade em dormir, e chorava até cansar e finalmente apagar. Depois que descobrimos que ela não estava comendo o bastante devido a minha baixa produção de leite e começamos a suplementar com fórmula, as coisas melhoraram. Agora ela já não chora tanto e dorme tiradas de duas ou, quando luxamos muito, três horas. Cansativo, mas melhor do que não dormindo e ainda por cima chorando no seu pé do ouvido a noite toda. Outro problema é que ela não gosta de dormir no bercinho que colocamos do lado da cama. Você coloca ela para dormir no braço e ela sonha com os anjos, mas é só colocar no bercinho que ela acorda como passe de mágica. Já lemos sobre o assunto e todo expert no assunto diz que até 6 semanas de vida, não adianta muita disciplina, é só paciência, tolerância, e um braço forte.

Problema número três? O tal dos hormônios, que fazem você chorar sem motivo. Você chora quando ela chora, chora quando ela dá risada (ou um esboço de risada, já que ela ainda não sorri nessa idade), chora quando ela dorme … dureza, mas todos os experts no assunto dizem que isso é normal e passa. O que tem me ajudado demais nessa fase é conversar com minhas amigas, principalmente as que tiveram filho há pouco tempo. Miséria gosta de companhia, e às vezes é bom saber que você não é a única pessoa passando por uma fase difícil.

A verdade é que essa vida com filho até o momento tem sido um choque para mim. De vez em quando (ok, frequentemente) me pego pensando na vida que eu tinha antes dela nascer - sair quando bem entendesse, viagens, tranquilidade - e, bem, a verdade é que eu morro de saudade da minha vida antiga. Isso, somado com os hormônios e a falta de sono, me fazem sentir como uma mãe menos que ideal. Se eu fosse adepta do espiritismo, eu diria que  me sinto como aqueles espíritos que ficam por aqui atazanando a vida dos outros porque não conseguem se desligar da vida terrestre e passar para o próximo plano. É mais ou menos assim.

Mas há luz no fim do túnel, apesar de eu ainda não enxergar. Como eu sei disso?  Porque meus amigos me dizem que há. E, no final das contas, todos acabam tendo dois filhos, o que para mim é um indicador de que não pode ser tão mal assim, ou que a recompensa é grande. Depois, apesar da canseira e trabalheira e noites mal dormidas, eu vou me afeiçoando cada vez mais a essa menina trabalhosa. Por fim, as coisas estão cada vez melhores. Não que ela já esteja dormindo seis horas por noite, mas nós vamos nos acostumando com a nova rotina (ou com a falta de rotina, por assim dizer) e tentando otimizar o tempo. Está um pouco difícil de cobrar felicidade a essa altura, mas nós chegaremos lá!

Paula, Dia Zero

Pois é, desde meu último post tanta coisa aconteceu que juro a vocês que parece que dois meses já se passaram. Mas só faz uma semana. Mas é tanto assunto para uma semana que vou ter que ir contando aos pouqinhos. Vou começar pelo parto.

E não é que eu comecei a sentir as contrações naquela bendita quinta à noite, a mesma do No News Is Good News? Fui dormir sentindo dores que desconfiava serem contrações, visto que nunca tinha passado pela experiência – são ondas de dores que vem e vão. No início elas vinham de 30 em 30 minutos, depois de 20 em 20 minutos, até que começaram a vir a cada 5 minutos. Como tinha participado das aulinhas do hospital, sabia que deveria ligar quando chegasse na regra do 5-1-1 – contrações a cada 5 minutos, com duração de 1 minuto, por 1 hora. Daí que lá para às duas da manhã (claro que não tinha pregado os olhos até então por conta da dor) eu liguei e o  hospital disse para eu ir para lá.

No hospital você vai para uma triagem para eles decidirem se você deve ser admitido ou ser mandado para casa para esperar mais tempo. Eu ainda não estava com dilatação suficiente e o médico me deu a escolha de ficar lá andando no hospital para ver se o processo se adiantava ou voltar para casa com um remedinho (morfina) para tentar dormir um pouco. Eu escolhi opção 2, porque naquele momento eu só queria uma pausa para a dor.

Voltei para casa e consegui dormir umas 3 horinhas (santa morfina). No outro dia acordei ainda com dor, liguei para o hospital e eles mandaram ir para lá. Tinha progredido pouco na dilatação, mas mesmo assim decidiram me admitir no hospital. Isso já era lá para 11 da manhã de sexta-feira. No quarto do hospital eu tinha  uma enfermeira que ficava comigo o tempo todo. E aqui eu abro um parêntese para dizer que sua experiência do hospital, boa ou ruim, vai depender muito mais da enfermeira do que de qualquer médico. A residente aparecia de vez em quando, o médico apareceu pouco, e eu só vi um bando de médico na hora do push. O resto do tempo foi a enfermeira, que por sinal era mais do que excelente. Sorte minha.

Bem, já tinha ouvido falar que tomar a anestesia atrasava um pouco a progressão do parto, então evitei a tal da epidural até onde pude. Até porque eu ficaria presa na cama depois da anestesia, o que é meio chato. Fiquei sentada em cima da bola para ver se a menina descia ;-) Lá para às quatro da tarde, como não havia muito progresso, decidiram estourar a bolsa para aumentar a intensidade das contrações. Foi nesse momento que eu decidi pela anestesia, e posso te dizer que o mundo ficou muito melhor depois disso. Descobriram que minha bolsa já tinha estourado, mas era tão pouco que ninguém tinha percebido. Daí resolveramme dar o tal do pitocin, um hormônio para induzir contrações. Daí para frente foi tudo muito rápido e quando eu menos esperava já estava fazendo o tal do push, que foi rapidinho. Dona Paula nasceu na sexta, dia 25 de março, as 9 da noite. Quando a vi pela primeira vez, o que mais me impressionou foi o tamanho dela. Esperava um bebe de 6 pounds, e saiu um bebe de 7 pounds que me pareceu enorme. Você jura que ela estava aí dentro?

Já ouvi de muitas amigas minhas por aqui que tiveram experiências desagradáveis no hospital para terem filho (decisões dos médicos mal tomadas, etc), mas eu não tenho nada do que reclamar. De quando comecei a sentir dor até Paula nascer foram umas 23 horas. Eu sabia que o processo seria longo, então ficar praticamente um dia inteiro em trabalho de parto não me surpreendeu. Os médicos/residentes/enfermeiras me trataram muito bem e sempre me consultavam antes de tomar as decisões. Bom para Paula,  já nasceu com o pezinho (bem, eu diria pezão) direito.

Fotos de Paula estão no Flickr.

Paula e Nós

Papai e Paula

Daddy's Little Girl

No News Is Good News?

Não necessariamente. Até o horário de postagem desse post, nada de Paula, nada de venda da casa, nada de nada. Mas eu tenho certeza que daqui a pouco vai tudo acontecer ao mesmo tempo – ela nascendo, o corretor louco atrás da gente com três ofertas que apareceram ao mesmo tempo, o aquecedor da casa vai quebrar …

O médico diz que as coisas estão progredindo, mas não quer se responsabilizar em dizer quando ela vai nascer, até porque é imprevisível. Mas já decidimos que de quarta-feira que vem não passa. Eles te dão a opção de fazer indução (com remédios, de jeito nenhum que eles vão partir para uma cesárea assim de cara) com 41 semanas, que será dia 30 de março. Eu só não quero que ela nasça dia 1 de abril – já pensou, você já começa sua vida nascendo no April Fool’s (Dia da Mentira)? Fora isso, dia 30 ou 31 de março está valendo. Dizem, inclusive, que andar é ótimo para induzir o nascimento, então já estou com planos de andar umas 5 milhas amanhã para ver se ela se anima.

O julgamento acabou na quarta-feira, mas até agora nada de veredito. Ficou decidido que eu não iria ao julgamento essa semana, e que a minha “back up” paralegal iria no meu lugar, dado o risco de, bem, algo acontecer em plena corte. Claro que minha ausência causou o maior ti-ti-ti, com os jurados extremamente curiosos com meu estado de saúde, digamos assim. E você bem que acharia que os advogados estão lá extremamente ocupados com o julgamento, mas vez ou outra eu recebia um e-mail do tipo “E aí, ela já nasceu?”.

Eu já ando até sem graça de ir  para o escritório, dado que todos me olham com aquela cara de “E aí?”. E aí nada, vocês estão vendo alguma coisa??? Esses dias fui ligar para Eduardo e quando ele atendeu ouvi o maior ti-ti-ti no fundo. “Você está numa reunião, por um acaso?”. “Estou sim, algo urgente?”. “Bem, não. E quem atende telefone quando se está numa reunião?”. Daí que eu percebi que sua esposa está passando do ponto de ter filho, bem, talvez você responda ao telefonema dela, mesmo que no meio de uma reunião.

A gota d’água foi hoje, quando a mulher de recursos humanos me mandou um e-mail para dizer que o povo do nosso seguro de short term disability ligou para perguntar se eu já tinha tido filho (na minha firma, o período que eu estiver fora de licença maternidade é considerado short term disability).  É isso aí, até o povo da seguradora anda se perguntando onde está Paula.

Apesar de tudo, ainda agradeço a Paula por não ter nascido no dia marcado, dia 23 de março. Essa é a data de  nosso aniversário de casamento, e eu suspeito, com certa razão, que Eduardo e eu não teríamos como celebrar nosso aniversário de casamento pelos próximos vários anos, caso ela resolvesse nascer na mesma data. Afinal de contas, nós deixaríamos ela com uma babá no dia do aniversário dela para celebrar nosso aniversário de casamento? Valeu pela consideração Paula, mas agora você já pode vir (desde que não seja no dia 1 de abril ou  ninguém vai acreditar que você chegou ;-)

Casa à Venda

Nossa casa chegou! Antes de Paula, é verdade, mas por bem pouco. Eduardo está um pai todo orgulhoso do projeto dele. E a porta vermelha, quem diria, fez o maior sucesso!  De fato, a casa ficou muito legal, e vale cada centavo que estamos pedindo – $979,575.00, para ser mais exata.  Quer preço mais preciso que isso?

Aqui está o anúncio da venda e aqui estão algumas fotos:

A Casa da Porta Vermelha

Sala de Estar, com Sala de Jantar e Cozinha ao Fundo

Sala de Jantar com Cozinha ao Fundo

Cozinha

Suite

Closet (Meninas, podem babar!)

Banheiro da Suite

Uma pergunta bem comum que as pessoas fazem é quem fez a decoração. Bem, nós contratamos essa empresa que se especializa em “staging” – eles vem na casa, medem tudo, fazem o design, trazem os móveis e decoram tudo direitinho. Afinal de contas, uma casa (bem) decorada vende muito mais fácil do que uma casa vazia. Fica bem dessas casas que ninguém mora – por exemplo, a cozinha não tem um eletrodoméstico em cima da bancada e o closet, como vocês podem ver, está vazio e bem organizado, bem do jeito que closet não é. O banheiro  não tem escova de dente e desodorante em cima da pia – que é que mora assim, escondendo a escova de dente todo dia de manhã?  Mas é isso aí, estamos vendendo um sonho de casa. Se vocês tiverem interesse em comprar, é so fazer uma oferta ;-)

Os Advogados do Diabo

Eu sei que já fiz muita piada de engenheiro aqui às custas de meu marido. Mas verdade seja dia, nós, advogados, também somos alvos de muita gracinha. Se engenheiros são nerds, advogados são estressados, e aproveitam o processo para estressar todos em volta.

Como já falei aqui, meu “due date” é dia 23 de março. Acontece que tínhamos um julgamento marcado para começar dia 28 de fevereiro, e por conta de atrasos na corte, agora só vai começar dia 9 de março. O julgamento deve durar uns dez dias (devo ressaltar que não há julgamento nas sextas-feiras), ou seja, deve terminar perigosamente perto do meu due date. Pessoas precavidas que somos, já temos uma paralegal de alerta para tomar as rédeas se eu precisar sair correndo para o hospital, mas o meu povo gosta de ser ultra-extra-além da imaginação precavido. Daí que tivemos uma conversa séria essa semana.

Advogado 1: “Nara, temos que pensar num plano para você. Tipo assim, estamos no meio do julgamento e você começa a sentir contração? O que fazer? Seu marido iria te pegar na corte?”

Eu: “Bem, como a corte fica em Tacoma (uns 40 minutos de Seattle), acho melhor eu pegar um táxi e ir para o hospital. É melhor do que eu dirigir e fica longe para meu marido ir  me pegar.”

Advogado 1: “Pode ser. Talvez seja bom você levar sua mala do hospital para a corte também.” (Como se eu já não tivesse o bastante para levar para a corte).

Advogada 2: “Boa ideia. É bom você ter uma muda de roupa também. Já pensou se sua bolsa estoura? Vai ser muito desconfortável ficar 40 minutos no táxi dessa forma…”

Advogado 1: “Talvez seja bom também ver se tem hospitais perto da corte, caso você precise ir logo para o hospital.”

Advogada 2: “E se você precisar de uma pausa para ir ao banheiro, mesmo que não seja a hora da pausa da corte, nos avise que nós pedimos uma pausa ao juiz.” (Já consigo até imaginar o anúncio: “Senhores e senhoras do júri, vamos fazer uma pausa  nesse momento porque a paralegal precisa fazer xixi.”)

Eu, como já tinha lido muito sobre o assunto de parto, sabia que as chances da bolsa romper antes de qualquer contração são muito pequenas; que se rompesse, seria algo discreto, ao invés daquele horror de água descendo de suas pernas; e que quando se começa a sentir dor de contração, quer dizer que você ainda tem umas boas 12 a 24 horas em trabalho de parto, então dá tempo de sobra de chegar no hospital. Mas claro que depois de tanto agouro é bem capaz que eu entre para os anais da corte como aquela paralegal que teve um bebe dentro da sala do juiz, num trabalho de parto que levou menos de duas horas, depois que a bolsa rompeu de tal forma que ficou claro para todo mundo da corte o que estava acontecendo.  Bem, pelo menos eu teria uma história interessante para contar para Paula.

Dia seguinte fui conversar com minha médica sobre os riscos de participar de um julgamento em Tacoma, a quarenta minutos de Seattle, e ela se acabou de rir da preocupação dos advogados. Bom para ela, gostei de saber que nós, advogados, somo fontes de alegria para outras pessoas.

E por que eu não desisto logo desse julgamento e deixo minha back up paralegal tomar conta do negócio de vez? Bem, eu estou numa fase do meu trabalho em que estou terminando projetos e fazendo questão de não pegar nada novo, daí que se eu não for ao julgamento,  não terei nada para fazer. E olhe que três semanas custam a passar quando você está desocupada. Depois, minha back up paralegal tem as responsabilidades dela, daí que ela ficaria com o trabalho de duas paralegals e eu ficaria com o trabalho de nenhuma. Eu poderia até ajudar nos casos dela, mas é bem ineficiente fazer ela trabalhar no meu caso, do qual ela não entende muita coisa, e eu trabalhar nos casos delas, do qual entendo menos ainda. E cá para nós, as chances de eu ter filho na corte ou até mesmo no táxi são bem remotas, apesar de ter muita gente por aí torcendo para eu dar o maior show em plena corte. Então, se for para o bem de todos e felicidade geral da firma, diga aos advogados que eu vou!

Aquela Casa Moderna da Porta Vermelha

A nossa casa multi-colorida agora tem uma porta vermelha (juro que a foto abaixo não faz justiça ao tom vermelho paixão que está essa porta). No final das contas eu gostei muito pelo ponto de referência que vai ser. “Moro numa casa na rua tal, não tem como errar, multicolorida e com a porta vermelha.” Ou o vizinho pode dizer, “se você continuar na rua tal, passa da casa moderna com a porta vermelha, continua mais umas três casas e daí você acha minha casa.” Muito útil essa porta vermelha, adorei! E a casa já está quase pronta (se eu já estou careca de ouvir essa história, imagina vocês). E aqui estou eu e a casa na maior competição – quem chega primeiro, Paula ou a casa? Podem fazer suas apostas porque a disputa está acirrada.

Casa Moderna de Porta Vermelha

Cozinha

Segundo andar, descendo para o primeiro andar

Esses dias Eduardo achou outra jóia de casa para comprar, e todo animadíssimo demais da conta, me mandou os papéis para assinar a compra da casa. Quem já comprou casa aqui sabe que o vendedor tem que fornecer um “disclosure” listando os problemas conhecidos da casa. Essa era mais ou menos assim: “Já ouve infiltração na casa? Sim. Já ouve vazamento no telhado? Sim. Já ouve danos por conta de terremoto? Sim. Há problemas na fundação? Sim.” Eduardo disse que não era para se preocupar, afinal de contas o plano era colocar a casa abaixo para construir outra (isso é, se ela não viesse abaixo antes de comprarmos). No final das contas, perdemos a casa por conta de várias outras ofertas que ela teve – como se vê, era um negócio da China.

Mas daí achamos outra, melhor ainda. Bem, não tinha tantos problemas como a casa anterior, mas tinha problemas bem sérios. Por exemplo, havia sido feito um estudo comprovando a existência de asbestos (muito usado em insulamento antigamente, pode causar doenças desagradáveis como câncer se a pessoa for exposta ao produto por tempo prolongado), tinta a base de chumbo (muito usada antes e durante a década de 70, comprovou-se depois ser grande fonte de problemas de saúde, principalmente para crianças, causando problemas neurológicos) e, de quebra, problema sério de mofo. Veja bem, uma pessoa que compra uma casa antiga (que nem nós) sabe que muito provavelmente há camadas e camadas de tinta de chumbo e talvez algum asbestos na casa. Se eles estiverem quietos, não há problemas. O problema é quando, por exemplo, você vai lixar a casa para pintar de novo, e aquele pozinho carregado de chumbo sai viajando pela casa e entra no seu pulmão. O que fazer? O que todo americano de bom senso faz: ninguém aqui lixa a casa para pintar, coloca-se uma camada de tinta em cima da anterior e voila, serviço pronto. No nosso caso, com uma casa de 1906, isso envolve várias camadas de tinta (de vez em quando ainda vemos uns pedaços da casa que foram pintados de roxo, vejam só).

Bem, essa casa está vendendo em “short sale” - um processo burocrático no qual o proprietário deve mais na casa do ela vale, daí vira para o banco e pede para que a casa seja vendida pelo preço de mercado e que o banco “perdoe” o restante da dívida porque, afinal de contas, ele não tem dinheiro para pagar mesmo.  E o banco concorda porque, se não vender em short sale, vai ter que entrar com processo de foreclosure (advogados, custas administrativas etc) e no final vai vender a casa até por menos do que seria vendida em short sale e teria mais despesas. A maior confusão, e a não ser que você esteja apaixonado pela casa, não recomendo.  Mas afinal de contas, tudo que á fácil fica meio chato, é ou não é???

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