Há alguns meses atrás, descobri por um acaso que uma paralegal lá do trabalho mora no mesmo bairro que eu, tem uma filha três meses mais nova que Paula e, pasmem, a filha dela vai para a mesma creche que Paula. Nós já tínhamo ido na casa dela uma vez por ocasião de uma festa que ela tinha planejado, então decidimos que era nossa vez deles virem aqui em casa. O marido dela é russo e, segundo soube, já tinha ido ao Brasil por conta de uma ex-namorada brasileira. Ela não quis elaborar muito sobre a ex-namorada brasileira, e eu, esposa de um homem com ex-namoradas que sou, não quis insistir.
De qualquer forma, durante a visita deles, o marido russo se aproximou de mim e perguntou, como quem não quer nada: “E aí, quantos nomes você tem?” Eu entendo que para muitas pessoas essa pergunta soaria estranha, sem sentido. Afinal de contas, quantos nomes uma pessoa pode ter? Mas depois de ter morado nos Estados Unidos por mais de 10 anos, eu entendi a pergunta e não pude deixar de dar risada. “Sabe como é”, continuou ele, “minha namorada tinha muitos sobrenomes.”
É uma questão cultural. No Brasil, se você tiver um nome curto, quer dizer que você tem o primeiro nome, o nome do meio (que é o último nome de solteira de sua mãe), e o último nome (esse o último nome do pai). Mas muitas vezes você herda dois últimos nome de sua mãe e dois últimos nomes de seu pai, e termina com uma infinidade de últimos nomes.
Nos Estados Unidos, onde as pessoas procuram ser o mais práticas possíveis, o primeiro nome e o nome do meio são “inventados” pelos pais e o último nome é o último nome do pai. O filho não herda o último nome da mãe. Não só isso, como esse tal nome do meio vira um “abbreviation” de formulário, onde eles só te pedem “diga por favor qual a primeira letra do seu nome do meio”. Eles nem querem saber seu nome do meio inteiro, só a primeira letra. Daí você percebe a importância que eles dão aqui a esse tal nome do meio. E americano é bastante informal. Conhecem o tal do Bill Gates? Pois o primeiro nome dele é William. Bill era para ser apelido. Samuel vira Sam, Daniel vira Dan, Bradley vira Brad, e por aí vai. Logo que comecei no trabalho novo, tive que mandar um email para um advogado que se chamava Bradley. Fiz lá meu email para o tal do Bradley – nada de senhor Bradley, só Bradley, o que no Brasil já seria informalíssimo. Dali a 5 minutos, estava o Bradley batendo na minha porta. “Nossa, que estranho”, disse ele. “Ninguém nunca me chama de Bradley, você pode me chamar Brad”. E por aí vai.
O resultado é que as pessoas aqui não estão acostumadas a esse excesso de nomes. Me lembro quando minha irmã e o namorado vieram ao Canadá. Ela me pediu para eu compra as passagens deles de Toronto para Vancouver, porque ela não estava conseguindo fazer a compra online. Acontece que o formulário da internete pedia que você colocasse seu nome exatamente como o do passaporte, e o namorado de minha irmã tinha quatro sobrenomes. O formulário da agência não tinha espaço para tanto nome. Afinal de contas, quem precisa de quatro sobrenomes? Acabei tendo que ligar para a agência para comprar as passagens, e o homenzinho do outro lado coçou a cabeça (obviamente não vi ele coçando a cabeça porque estava falando com ele no telefone, mas eu podia ver a cara dele na minha frente, que nem essas experiências fora do corpo) e disse: “Ih, vou ter que ligar para a companhia, não sei como fazer a reserva para tanto nome”. No final deu tudo certo, mas definitivamente para as bandas de cá, “menos é mais”.
Ah, e voltando ao russo com a ex-namorada brasileira que tinha um bocado de sobrenome. O que respondi ao russo? “Tenho só dois sobrenomes”, disse eu. E ainda conclui com uma resposta com pouquíssimo fundamento científico e muito fundamento de achismo: “Sabe como é, esse negócio de muito sobrenome é coisa de realeza e gente importante. No Brasil as pessoas gostam de se sentir importantes e especiais, e ter muito nome é uma forma de se diferenciar dos outros”. Não sabia mais o que dizer. Afinal de contas, quem precisa de quatro sobrenomes?















