Archive for October, 2010

Leavenworth, De Novo

Bem, praticamente todas as visitas que ficam nessa casa são levadas a Leavenworth para um “day trip”. É um lugar fácil de ir (2 horas e meia de carro), a estrada é bonita, ainda mais no outono quando as árvores estão começando a amarelar e, não menos importante, tem comida alemã. E a boa! A viagem fica ainda mais perfeita quando não se está grávida e pode-se aproveitar a comida tipicamente alemã com uma boa cerveja tipicamente alemã … não foi esse o meu caso, que tive que degustar minha refeição com coca-cola diet, e, maior dos desaforos, ainda por cima fui a “escolhida”  para dirigir de volta para Seattle  já que tinha sido a única a não beber. Mas me aguardem, dia 24 de março de 2011 vai ser celebrado com uma taça bem cheia de vinho ;-)

Bem, de volta a Leavenworth. O passeio é bastante agradável, e se não fosse tão longe eu iria lá com muito mais frequência por conta da comida alemã e da cidade. Mas como tudo que fazemos nessa vida tem que ter aventura, Eduardo decidiu testar por quanto tempo o tanque de combustível do nosso carro aguentava ficar sem combustível, e tivemos a agradável surpresa de ver a luz do painel avisando que a gasolina estava baixa acendendo quando estávamos subindo Stevens Pass. Mas como na descida todo  santo ajuda, nossa sorte foi que chegamos logo no topo e dali foi ladeira abaixo (em ponto morto na maior parte do tempo), até chegarmos no próximo posto de gasolina. Passada nossa mini-crise do dia, finalmente pudemos aproveitar a cidade.

Leavenworth, tão tranquila ...

A família Neves

Olha só, até peguei Eduardo no flagra dando um sorrisinho ;-)

Pois bem, no final das contas foi uma ótima idéia ter ido a Leavenworth. A previsão do tempo para Seattle final de semana estava de mal a pior, e pensamos que, se for para termos tempo ruim, que pelo menos seja com comida alemã e um passeio diferente. Tivemos a maior sorte, porque o tempo em Leavenworth estava bem agradável, não do tipo sol com 70F agradável, mas a temperatura estava boa para andar na rua e não choveu hora nenhuma.

Joelho de porco, antes da devastação ...

... e depois do ataque. Não sobrou nem o osso para contar história.

E Agora José?

Pois bem, esse negócio de clínica de fertilidade tem suas histórias engraçadas. Claro que engraçado só fica depois que você passa pela situação. Na hora, você fica para arrancar os cabelos. Assim foi com o pobre Eduardo.

Um dos primeiros exames que a médica da clínica pediu foi o análise de sêmen para Eduardo. Porque se estava difícil para eu engravidar até de Jesus Cristo, se Eduardo também tivesse com problema de produção baixa de espermatozóide daí que não teria remédio para ovular que funcionasse. Segundo me conta o próprio, quando ele foi ligar para a clínica para marcar o dia do exame a conversa foi mais ou menos assim:

Eduardo (E): “Meu nome é Eduardo e eu estou ligando para marcar um exame de análise de sêmen.”

Recepcionista (R): “Qual o nome da sua esposa?”

Eduardo: “Nara Neves.”

R: “Certo, achei aqui. Qual o dia melhor para você, seu Carlos?”

E: “Qualquer dia de manhã cedo está bom. E meu nome é Eduardo.”

R: “Quinta às 8 da manhã está bem, seu José?”

E: “Perfeito! Só troca o nome para seu Eduardo.”

R: “Tudo bem, anotei aqui. Até quinta, seu Marcos.”

Pois bem, depois dessa eu fiquei bastante convencida de que não queria fazer uma inseminação intra-uterina na clínica. Vai ver que a mulherzinha lá tratando do sêmen acha que esse povo latino é tudo igual, e ninguém vai perceber mesmo se nós trocarmos aqui o material do seu Eduardo e seu Carlos, e daí meu filho nasce com cara de Carlos. E aí, com que cara eu fico?  Minha única desculpa (e uma ótima desculpa, por sinal) é que eu estava lá deitada quietinha e cercada de testemunhas, num processo para lá de desagradável e sem o mínimo de controle sobre que sêmen eles estariam usando. Como decidimos fazer filho ao natural, se meu filho nasce a cara do vizinho chinês, Eduardo talvez, quem sabe, até desconfie que alguma coisa não está certa. Mas e se eu estava na clínica, qual a explicação que se dá para o menino nascer com cara de José? Intervenção divina? Mas fora esses pequenos problemas estratégicos, a clínica era otima! :-)

Ode Ao Vinho

Vejam bem, estar grávida é mais ou menos como viver nos Estados Unidos nos meses seguindo o 11 de setembro – um terrorismo só! Não pode comer derivados do leite se não for leite pasteurizado, tem que evitar café, não limpar caixa do gato, não consumir bebida alcoólica, evite adoçante … ah, e no meio disso tudo, tente não se estressar muito. Ufa! Da minha parte, que mal tive cansaço ou enjôo, a pior parte da gravidez tem sido o não poder consumir bebida alcóolica. Daí que eu dedico esse post ao vinho (e às cervejas belgas).

Bem, minha atual fase abstêmia vem a comprovar algo que eu suspeitava há muito tempo … vida sem vinho é uma vidinha bem sem graça, bem blah. Começa que, quando se vai a restaurante e não se pode beber vinho ou cerveja, o que você bebe? Suco de maçã? Simplesmente, não há opções tragáveis. Quem bebe sente prazer em ficar bebericando à mesa. Quem não bebe foca demais na comida. Eu, por exemplo, que nunca pedia sobremesa, agora quase sempre peço. É mais ou menos uma troca: já que não tenho o prazer da bebida, que pelo menos tenha o prazer viciante do açúcar entrando no meu cérebro. É tão somente uma troca de vícios.  Mas há algumas táticas para  pessoas como eu superar essa fase de forma mais fácil.

Primeiro, evite a tentação. Eu consigo perfeitamente ir comer um hamburger e pedir um refrigerante, ir a um restaurante mexicano e pedir uma margarita sem álcool, ir comer um crepe e beber um chá. Mas quando se vai a um restaurante italiano ou francês, não há nada que substitua um bom vinho para acompanhar a refeição. Daí que eu tenho evitado ir a esses lugares. E quando vou, é o maior sufoco para escolher o que beber. Esses dias fui a um francês e pedi sugestões à garçonete de bebidas sem álcool. Ela sugeriu um dry soda (tipo refrigerante, só que menos doce) de pepino. Bem refrescante. “Fica ótimo”, disse ela, “quando você coloca um pouco de rum”. Ah, será que eu esqueci de mencionar SEM ÁLCOOL? Ela olhou para minha cara de “dry soda desapontada” e tentou consertar logo. “Eu vou trazer num copo de champanhe, para você se sentir especial”. O estrago já havia sido feito, mas Eduardo, como sempre, foi o salvador da pátria. Ele pediu um vinho, do qual tomei dois golinhos e, nossa, que maravilha … só sentir o cheiro do vinho, o aroma do vinho subindo pelo céu da boca, entrando no cérebro, ativando todos os sensores de prazer e felicidade … até hoje não me esqueço daqueles dois golinhos tão especiais, há várias e várias semanas atrás.

Minha médica me disse que, depois do primeiro trimestre, meia taça de vinho ocasionalmente não fazia mal nenhum. Só não muita certeza do que quer dizer esse “ocasionalmente” – uma vez por semana? uma vez por mês? Como os restaurantes não vendem meia taça de vinho, fico a mercê de Eduardo pedir vinho para eu beber meus dois golinhos. Mas para sorte de Júnior, Eduardo em geral pede cerveja, que já não me apetece muito.  Daí que meus dois golinhos tem sido beeem ocasionalmente, do jeito que a médica gosta.

Já falei para ficar longe da tentação? Eu sempre gostei de chegar do trabalho e cozinhar bebericando uma taça de vinho. Não mais. Minhas garrafas de vinho estão escondidas, afinal de contas, longe dos olhos, longe do coração. Eduardo tem sido bem bonzinho de evitar beber à noite do meu lado, ou corre o risco deu passar o jantar inteiro namorando a taça de vinho com os olhos. Outra dica: evite sair em grupos onde as pessoas bebem. Uma coisa é sair com Eduardo que pede uma taça de vinho para eu beber uns golinhos, outra coisa é sair com outro casal onde as pessoas pedem garrafa de vinho, bebem, e você fica lá no dry soda/suco de maçã/água, com aquele cheiro de vinho exalando no ar, torcendo para chegar a hora da sobremesa.

Eu tenho tentado experimentar. Todo restaurante tem uma lista de coquetéis, e você pode pedir um coquetel sem álcool. Em geral, são bem doces e sem muito gosto de nada, mas daí há sempre a expectativa de algum dia vir algo que preste. E eu tenho aprendido a saborear meus pequenos e raros goles de bebida. Esses dias pedimos uma sobremesa que tinha um gosto bem leve, bem ali longe, de rum. Nem preciso dizer, eu fui para o céu e voltei com aquela sobremesa, e até hoje sonho com ela.

Bem, no final das contas, eu tenho até me saido direitinho sem bebidas alcoólicas. Parei de beber e não tive tremedeiras ou crises de abstinência, o que implica dizer que não sou viciada. É  mais ou menos assim: você acorda de manhã e pensa que aquele dia, só naquele dia, você não vai beber. E faz a mesma coisa no dia seguinte. Quando você menos espera, já se passou um mês e você não bebeu. Olha só que maravilha? Agora use esse pensamento positivo por nove meses, mais o tempo em que você estiver amamentando (se bem que já ouvi dizer que as regras para não beber  são mais tranquilas no período de amamentação) e voila. Fácil, não? Mas como o povo diz por aqui, “easier said than done”.

Casa Número Três

Estou eu no trabalho há umas duas sextas passadas, quando recebo esse e-mail carinhoso de Eduardo com um anexo e a seguinte messagem: “Você assina?” Bem, em se tratando de Eduardo, eu assino embaixo em qualquer coisa … exceto na oferta de compra de uma terceira casa. “Como assim, uma terceira casa?” pergunto eu. “Mas essa é baratinha”, insiste ele, “e vamos alugar até terminar a reforma da outra casa”. Assinei, e depois fui no site para ver o que estava comprando. E não é que a casinha é bem simpática? Bastante compacta com 770 sf (appr. 70 m2), o estilo dela é o que chamam de “cape cod”, o que me agrada muito. Precisa de uma reforma sim, mas na verdade o destino dela de acordo com os planos de Eduardo & Cia é demolir a cape cod simpática e construir no lugar uma casa moderna, idéia que  não me agrada muito já que nunca fui chegada a essas modernidades.

Mas claro que as coisas não poderiam ser assim tão fáceis, não é? Acontece que, apesar da casa estar no mercado há uns três meses, no dia que fizemos a ofterta outra pessoa também fez oferta. E aí entra naquela história de leilão, e como já tínhamos perdido algumas casas em leilão, aumentamos o valor da oferta e prometemos fazer o closing em duas semanas, ao invés de um mês. Conseguimos a casa, e daí foi aquela correria para vender ação e arrecadar o dinheiro para pagar a casa, já que duas semanas não seria tempo suficiente para arrumar financiamento. E no meio disso tudo, nosso contractor já tinha arrumado alguém interessado em alugar a casa (que por sinal, ainda não era nossa). Ufa.

Tudo certinho, não? Nada disso, agora estamos às voltas com enrolação da escritura da casa, ameaçando o negócio dar para trás. Como também  não damos sorte com essas escrituras (vide o famoso problema do driveway), ou com vendedores com histórias estranhas (vide os vendedores fantasmas da segunda casa), estamos tirando essa de letra. Mas a história é interessante.

Lá para os idos de 1965, o Senhor Sicrano vendeu a casa para o casal Senhor e Senhora Fulano, que financou a casa com o Senhor Sicrano. Isso mesmo, ao invés de ir ao banco atrás de financiamento, eles pegaram empréstimo com o vendedor da casa. Alguns vários anos depois, o casal Fulano criou uma companhia, a Fulano Cia, e passou a casa para o nome da companhia. Acontece que agora, quando fomos revisar a escritura para ver se estava tudo direitinho, a casa ainda estava no nome do Senhor Sicrano. O que seria normal, se o casal Fulano ainda tivesse financiando com ele (empréstimo com vendedor é diferente de empréstimo com banco, onde a casa fica no nome do comprador). Acontece que a família Fulano disse que já havia pago a dívida há uns 20 anos atrás. Só que a companhia que averigua os documentos para a escritura não achou nenum documento registrado comprovando que a dívida havia sido quitada. Ou o Senhor Sicrano nunca registrou o documento, ou ele deu o documento para a família Fulano que colocou na gaveta e esqueceu da história.  E aí, o que fazer?

Bem, isso é problema do vendedor de desenrolar a história, e a primeira providência é ir atrás do Senhor Sicrano e pedir o tal do documento. Eu, pessimista como sou e um tiquito de nada entendedora de problemas de escrituras já que lido muito com isso na minha firma, fiquei torcendo para que o Senhor Sicrano ainda estivesse vivo. Pois bem, o Senhor Sicrano já havia falecido. E aí, o que fazer? Bem, você tem que ir atrás dos herdeiros. Ou você faz uma pesquisa nas cortes para ver se houve processo de inventário para daí descobrir os herdeiros, ou você tem que sair ligando para a família do Senhor Sicrano para explicar a história e descobrir quem são os herdeiros. E aí, se não houver herdeiros ou não se descobrir quem são os herdeiros? Daí você entra com um processo na corte (muito simples, por sinal, e já fizemos isso alugmas vezes no nosso escritório) para notificar os herdeiros por publicação pelo jornal e, se ninguém aparecer (nunca aparece, afinal de contas que lê essas notificações legais no jornal?), você pede ao juiz para transferir a casa para o nome da Fulano Companhia. Esse processo todo leva alguns vários meses, já que você tem que publicar no jornal por seis semanas, e depois esperar um prazo para ver se alguém aparece. E, claro, seguindo a linha pessimista de pensamento, você também pode achar algum herdeiro encrequeiro do Senhor Sicrano batendo o pé que a dívida não foi paga, e, bem, haja custas de advogados para resolver o problema.

Mas, se tudo isso não fosse complicado o bastante, ainda há outro pequeno fator na história. O Senhor Fulano também faleceu há uns 10 anos atrás, e a Senhora Fulano está doente no hospital, e pelo que ouvimos está mais para lá do que para cá. O Senhor Fulano Júnior é quem está tomando conta da situação. E, como nos disseram que Júnior faz parte da tal Fulano Companhia, e o casal Fulano já passou os direitos sobre a casa para a companhia, não haveria muitas complicações legais se a Senhora Fulano viesse a falecer. Do contrário, a casa entraria em outro processo de inventário.

Nós estamos tranquilos na história, afinal de contas, na pior da hipótese não compramos a casa. Ainda podemos pular fora já que o vendedor tem obrigação de nos dar um “clear title” (escritura limpa), como chamam, o que ainda não é o caso. O que não queremos é comprar um problema legal difícil (e caro) de desenrolar. Meus sentimos aqui vão para o Senhor Fulano Júnior, que com a mãe doente no hospital, arrumou um senhor abacaxi para descascar. Boa sorte, Júnior!



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