Há algumas semanas passadas, dia 2 de abril para ser mais exata, houve um acidente numa refinaria da Tesoro, que fica numa cidade mais ou menos próxima de Seattle. O “acidente” em si foi uma explosão que deixou cinco mortos e dois feridos com queimaduras graves; semana passada um desses dois veio a falecer, elevando para seis o número de vítimas. Sendo Tesoro um de nossos clientes, vários advogados foram despachados para a refinaria. E eu acabei indo junto.
Como vocês devem imaginar, um “acidente” que deixa cinco mortos e dois gravemente feridos não iria passar desapercebido pelo governo. Duas agências do governo federal e uma agência do governo estadual baixaram na refinaria para as devidas investigações: entrevistas, olhar documents, visita ao local do acidente. Nós (juntamente com mais outras duas firmas de advocacia que também prestam serviço a Tesoro, juntamente com o time do departamento legal da Tesoro, que veio de Houston, juntamente com pessoal técnico da Tesoro, mais consultores contratados para a ocasião), nos alojamos na refinaria para auxiliar a prestar informações a essas agências, e da mesma forma, como todo bom advogado, não prestar mais informação do que o devido. Fora as investigações do governo, a própria refinaria abriu uma investigação interna e os advogados fazem outra investigação paralela, o que dá um total de cinco investigações.
O que eu faço por lá? No início eu só fui substituir uma outra paralegal que teve que voltar para o escritório. Comecei participando das entrevistas na investigação dos advogados, com o dever de fazer anotações. Parece fácil, mas não é, principalmente com todo o “tecnês” falado nas entrevistas. Palavras antes desconhecidas no meu vocabulário viraram lugar comum. As entrevistas mais leves no tecnês eram das pessoas que chegaram primeiro para prestar socorro, mas daí você tinha que ficar ouvindo como eles chegaram no lugar do acidente, viram os colegas queimados, e alguns feridos e meio desorientados … Quando já estava ficando menos pior nas anotações, me mandam para o departamento que está revisando os documentos para mandar às agências.
O plano é ficar lá até deus sabe quando. Nós e esse povaréu todo que apareceu por lá estamos ocupando praticamente todos os hotéis da cidade. Eu, claro, tenho meus próprios planos de não ficar lá por muito tempo. Não que seja totalmente desagradável. As pessoas são legais. Mas é uma refinaria, e estamos trabalhando em trailers. E o cheiro por lá não é dos melhores. Aquela chaminé soltando fumaça o dia todo, os trailers, os portões com guardas … me lembra um bocado de quando fui para Auschwitz. E a refinaria tem várias regras. Há o portão principal do complexo da refinaria e dentro há outro portão, que engloba uma seção menor. O meu trailer atual fica dentro do portão principal mas fora do portão menor, o que nos dá mais liberdade. Se você atravessar o portão menor, onde era o outro trailer, a coisa é mais complicada. Quando você chega no trailer, por exemplo, tem que ligar para o portão para dizer que chegou. Quando você for sair do trailer, mesmo que para ir embora, tem que ligar para o portão para dizer que você está saindo. Eles não gostam de gente zanzando por lá. Como se fosse agradável ficar zanzando num lugar que cheira mal e tem risco de explosão.
Quarta-feira é sempre um dia especial na refinaria. Chega meio-dia, o alarme toca. É o dia de testar o alarme. Quem está por lá sabe disso, mas para mim, novata da turma, foi um pequeno momento de pânico. Dá-se meio-dia, o alarme toca, e eu olho com aquela cara de “devemos correr ou devemos ficar”. Daí me explicam com aquela cara de “vê-se que ela não é daqui” que toda quarta ao meio-dia o alarme toca para teste. E se tocar qualquer outra hora que não quarta ao meio-dia, pergunto eu? Daí é para você correr para a frente do prédio da administração. Ah, bom. Agora é só torcer para o próximo acidente não acontecer na quarta ao meio-dia.






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