Archive for April, 2010

Semana II

Segunda semana em Anacortes. Depois de meu final de semana em casa (um luxo entre as pessoas que foram “voluntariadas” para esse projeto), acordei 5:00 da matina na segunda para dirigir para Anacortes, que fica a uma hora e meia de Seattle.  Tinha planos ambiciosos de trabalhar até tarde na segunda e adiantar meu serviço no trailer do “Document Production”. Eu tinha a chave do trailer (outro luxo, devo  dizer, já que eles só entregam cópias das chaves para pessoas de alta confiança) e assegurei a todos que eles deveriam ir embora, que eu trabalharia até tarde.  O plano funcionou muito bem, e a noite foi bem produtiva, até umas 8:30 da noite, quando decidi ir para o hotel. Para minha grande surpresa, a chave do trailer não funcionava. Acabei indo para a portaria para perguntar se eles tinham uma outra chave (não tinham). Para encurtar a história, depois de muito convencer o guardinha (que olhava desconfiado para mim), consegui que ele fosse ao escritório de uma das aministradoras da companhia que está nos dando suporte (que eu só fazia maldizer por não ter testado a chave) e outra chave foi encontrada. Por conta desse rolo todo, só cheguei no hotel às 10 da noite. Longo dia.

Terça-feira, pelo contrário, meu plano era de não trabalhar até tarde.  Acabei marcando com as colegas de ir a um dos cinco restaurantes da cidade. Para nossa surpresa, encontramos quase todos os advogados e funcionários de todos os trailers no restaurante. Sabe como é, cidade pequena tem dessas coisas. No final, mais gente foi se juntando à nossa mesa, e gente que foi chegando mais tarde, e isso, e aquilo, e no final das contas só saímos de lá quase meia-noite, depois de algumas várias rodadas de bebida.  No dia seguinte, tinha gente reclamando de sintomas de gripe: dor de cabeça e cansaço. Eu, mais do que gentilmente, lembrei a eles da noite anterior, e que dormir tarde + bebida + acordar muito cedo (temos que estar no trailer às 7:30 da manhã) = ressaca ou “sintomas de gripe”.

Na quarta eu estava decidida a dormir pelo menos 7 horas. Afinal de contas, não sou mais tão jovem, e esse negócio de dormir pouco e beber muito não me leva a lugar nenhum. Daí que saí com as mesmas colegas de trabalho para jantar bem cedo, às 7 da noite. Lá para às 8 da noite, aparece o mesmo grupo da noite anterior. Eu já disse que Anacortes é uma cidade pequena? O negócio foi enrolando e acabei chegando no hotel perto de 10 da noite, depois de várias rodadas de bebida (para alguns, eu já tinha aprendido minha lição). 

Quinta resolvi tentar adiantar o serviço e ficar até mais tarde. Dessa vez, testei a chave eu mesma. Um dos problemas é que nosso trailer é todo aberto, sem escritórios individuais, e tem algumas pessoas (que nem a nossa “administradora”) que não param de falar. E, claro, tem as interrupções. Daí que trabalhar duas horas depois que o povo vai embora adianta meu serviço de montão. Fiquei trabalhando até 8 da noite e voltei para o hotel. Sexta era dia de voltar para casa. Para mim, é uma viagem de 1 hora e meia de carro, mas para quem veio de Houston (Texas), involve algumas várias horas de avião. E apesar de sexta ser o dia que nós geralmente saímos à noite, eu só queria ficar em casa e comer “home cooked” meal, dormir na minha cama, usar o meu banheiro e, não menos importante, curtir a companhia da minha família (i.e. marido e gato).

Semana que vem o plano para mim (olha que o plano muda sempre e constantemente) é ir para Anacortes segunda-feira, retornando terça-feira depois do expediente. Vai ser (muito) bom passar um restinho de semana em casa, ando cansada dessa história de ficar acampada no hotel ;-(

E Hoje É Quarta-Feira

Há algumas semanas passadas, dia 2 de abril para ser mais exata, houve um acidente numa refinaria da Tesoro, que fica numa cidade mais ou menos próxima de Seattle. O “acidente” em si foi uma explosão que deixou cinco mortos e dois feridos com queimaduras graves; semana passada um desses dois veio a falecer, elevando para seis o número de vítimas. Sendo Tesoro um de nossos clientes, vários advogados foram despachados para a refinaria. E eu acabei indo junto.

Como vocês devem imaginar, um “acidente” que deixa cinco mortos e dois gravemente feridos não iria passar desapercebido pelo governo. Duas agências do governo federal e uma agência do governo estadual baixaram na refinaria para as devidas investigações: entrevistas, olhar documents, visita ao local do acidente. Nós (juntamente com mais outras duas firmas de advocacia que também prestam serviço a Tesoro, juntamente com o time do departamento legal da Tesoro, que veio de Houston, juntamente com pessoal técnico da Tesoro, mais consultores contratados para a ocasião), nos alojamos na refinaria para auxiliar a prestar informações a essas agências, e da mesma forma, como todo bom advogado, não prestar mais informação do que o devido. Fora as investigações do governo, a própria refinaria abriu uma investigação interna e os advogados fazem outra investigação paralela, o que dá um total de cinco investigações.

O que eu faço por lá? No início eu só fui substituir uma outra paralegal que teve que voltar para o escritório. Comecei participando das entrevistas na investigação dos advogados, com o dever de fazer anotações. Parece fácil, mas não é, principalmente com todo o “tecnês” falado nas entrevistas. Palavras antes desconhecidas no meu vocabulário viraram lugar comum. As entrevistas mais leves no tecnês eram das pessoas que chegaram primeiro para prestar socorro, mas daí você tinha que ficar ouvindo como eles chegaram no lugar do acidente, viram os colegas queimados, e alguns feridos e meio desorientados … Quando já estava ficando menos pior nas anotações, me mandam para o departamento que está revisando os documentos para mandar às agências.

O plano é ficar lá até deus sabe quando. Nós e esse povaréu todo que apareceu por lá estamos ocupando praticamente todos os hotéis da cidade. Eu, claro, tenho meus próprios planos de não ficar lá por muito tempo. Não que seja totalmente desagradável. As pessoas são legais. Mas é uma refinaria, e estamos trabalhando em trailers. E o cheiro por lá não é dos melhores. Aquela chaminé soltando fumaça o dia todo, os trailers, os portões com guardas … me lembra um bocado de quando fui para Auschwitz. E a refinaria tem várias regras. Há o portão principal do complexo da refinaria e dentro há outro portão, que engloba uma seção menor. O meu trailer atual fica dentro do portão principal mas fora do portão menor, o que nos dá mais liberdade. Se você atravessar o portão menor, onde era o outro trailer, a coisa é mais complicada. Quando você chega no trailer, por exemplo, tem que ligar para o portão para dizer que chegou. Quando você for sair do trailer, mesmo que para ir embora, tem que ligar para o portão para dizer que você está saindo. Eles não gostam de gente zanzando por lá. Como se fosse agradável ficar zanzando num lugar que cheira mal e tem risco de explosão.

Quarta-feira é sempre um dia especial na refinaria. Chega meio-dia, o alarme toca. É o dia de testar o alarme. Quem está  por lá sabe disso, mas para mim, novata da turma, foi um pequeno momento de pânico. Dá-se meio-dia, o alarme toca, e eu olho com aquela cara de “devemos correr ou devemos ficar”. Daí me explicam com aquela cara de “vê-se que ela não é daqui” que toda quarta ao meio-dia o alarme toca para teste. E se tocar qualquer outra hora que não quarta ao meio-dia, pergunto eu? Daí é para você correr para a frente do prédio da administração. Ah, bom. Agora é só torcer para o próximo acidente não acontecer na quarta ao meio-dia.

Compras

Há uns finais de semana atrás, Eduardo e eu fomos ao outlet mall, que é um tipo de shopping onde as lojas vendem “direto de fábrica”, por assim dizer, incluindo produtos já descontinuados do mercado, e portanto vendem a um preço bastante camarada. Eu com certeza gastei menos de $100 nas minhas compras, e Eduardo também gastou menos de $100 … em cada loja que parou.

Antes que todo mundo comece a achar que Eduardo é o gastador do casal, tenho que explicar que Eduardo e eu temos métodos diferentes de compra. Eu gosto de comprar aos poucos. Como trabalho perto do centro de Seattle, pelo menos uma vez por semana eu passo nas minhas lojas favoritas e dou uma olhadinha nas mercadorias novas que chegaram e também nas promoções. Comprar em promoção é muito bom, mas é um investimento a longo prazo. Você compra blusas de alcinha por um preço maravilhoso, só que a máxima temperatura prevista para o mês seguinte não passa de 10 Celsius. Ou seja, não tem aquele negócio de comprar e ir logo usando, é para colocar no guarda-roupa e usar dali a 3 meses, quando chegar o verão, e se você lembrar, e se o verão for longo o bastante que dê tempo para você usar todas as cinco blusas de alcinha que você comprou na promoção. Senão fica para o verão seguinte.

Eduardo, por outro lado, não gosta muito de bater perna em shopping. Daí que numa sentada, ou numa saída no outlet mall, ele compra para o ano todo. Já eu acho sem graça comprar tudo de vez, até porque se eu gastar minha mesada inteira numa manhã de shopping, fico sem muita condição de comprar meus casacos de lã em super promoção no meio do verão, e meus shorts no meio do inverno.  Ah, e eu sou pão-dura. Às vezes vou na loja, vejo um ítem que eu adoro por um preço já bom, mas fico sem querer comprar porque eu sei que se eu esperar mais uma ou duas semanas eles vão abaixar o preço ainda mais. Claro, de tanto esperar, às vezes a mercadoria se esgota e eu fico a ver navios. Na maior parte das vezes fica tudo bem, mas às vezes fico pensando que deveria deixar de ser tão pão dura porque, puxa vida, aquele vestidinho era tão bonitinho e eu não consigo achar outro igual.

Mas minha grande compra no outlet mall foi um dos grandes ítens da moda, que eu andava resistindo com todas as forças: os óculos escuros de abelha. Sabe aqueles óculos escuros enormes, estilo Jackie Kennedy, que segundo as próprias palavras de Eduardo, “tem gente que nem fica tão mal com eles”? Pois é, ninguém fica bem com aquilo, mas eu finalmente achei um que me fez olhar no espelho e pensar que, puxa vida, até que eu não estava tão mal assim. Comprei os óculos por $14, que em mundo de outlet mall e óculos escuros “made in China”, até que não é tão barato assim. Não tive muita oportunidade de usar porque desde então o sol sumiu, mas está aqui guardado na gaveta. Só tenho que lembrar de usar quando o sol aparecer, daqui a mais ou menos três meses ;-(



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