Archive for February, 2010

O que é que pesa mais? 20 kilos de chumbo ou 20 kilos de algodão?

Acho que dada a minha ausência no blog, é plenamente concebível que Nara esteja prestes a retirar meu nome do “Nare e Eduardo” do site. Sendo assim, deixa eu escrever alguma coisa e ver se meu nome fica aí por mais uns 6 meses.

Bem, assim como Nara tanto gosta de dizer, sou engenheiro. Então vou escrever sobre física, matemática e finanças. Oba!

Lembram-se das nossas aulas de física em que o professor nos perguntava o que é que pesava mais? Ou o que é que caía mais rápido? Se um saco com 20 kilos de chumbo ou um saco com 20 kilos de algodão? O fato é que a gavidade, ao contrário da razão humana, não discrimina.

Aí vai a minha pergunta então: o que é que vale mais à pena economizar? $100 em restaurantes ou $100 na prestação da casa? Hmm. Essa é fácil: $100 na prestação da casa, claro. Gastar $100 em restaurante é muito mais divertido! Mas $100 não são $100? Não é tudo igual? Que nem chumbo e algodão?

Eu sou bem disciplinado com esta coisa de dinheiro. E sendo assim, sempre sei quanto a gente gasta por mês com o quê. Sei também, que às vezes a gente faz umas economias bobas e perde chances de economizar com coisa muito maior. E o meu exemplo preferido é prestação de casa.

Vale muito mais à pena ficar de olho nas taxas de juros e conseguir refinanciar a prestação da casa pra economizar uns $100 por mês do que tentar cortar $100 do orçamento de lazer. E não é nada difícil conseguir refinanciar sem gastar nada de closing costs (usando algo chamado de pontos negativos).

Daí que se der pra refinanciar, não pagando nada do bolso, e garantindo uma economia de $100 por mês pelos próximos 30 anos, eu vôo em cima. Num empréstimo de $300 mil, por exemplo, conseguir uma redução de taxa de 6.5% para 5.5% reduz o pagamento em $200 por mês. Hmm, com $200 por mês dá pra comer fora um bocado…

Cerveja Belga 101

Domingo passado fomos para uma aula sobre cerveja belga, num bar (como não poderia deixar de ser), com professor e tudo. Deve ser um emprego maravilhoso, não?  Passar o dia estudando sobre (e experimentando) cerveja parece algo que eu poderia fazer o resto da minha vida.

Durante a “aula”, nós experimentamos sete tipos de cerveja diferente, enquanto o “professor” explicava as características de cada cerveja, um pouco da história da Bélgica, diferença entre cervejas belgas … pelo menos isso é o que me lembro até a quinta cerveja, o que comprova que estudar bebendo cerveja não é uma boa idéia.  Antes de entrar nos específicos de cada cerveja, aqui vão umas linhas gerais. Há vários tipos de cerveja belga, o que é bem impressionante para um país tão pequeno. Os belgas são bem criativos com cerveja, daí que às vezes é meio difícil classificar certas cervejas. Existem as “white beers” (cervejas brancas) que são de trigo e, segundo Eduardo, tem gosto de coentro. Não é das minhas favoritas, apesar de eu adorar cerveja de trigo.

Há as famosas “trappist beers”, e essas são interessantes. Trata-se de cervejas que são preparadas num monastério trapista (não tenho a mínima idéia se existe essa palavra em português, mas aí vai). Para ter a denominação de “trappist beer”, a cervejaria tem que estar dentro ou nas proximidades do monastério, os monges têm que participar da produção da cerveja, e o lucro com a venda tem que ser usado para caridade ou para auxílio ao monastério. Hoje há somente sete monastérios que se qualificam para produzir a “trappist beer”, seis deles na Bélgica (sendo a Chimay, uma das minhas favoritas, uma delas) e um na Holanda. Não confundir “trappist beer” com “abbey beer”, que, por sua vez, são cervejas produzidas por cervejarias comerciais que têm certos “laços” com os mosteiros. Uma das minhas favoritas nesse estilo é a Leffe.

Pois bem, de volta à aula. Primeiro experimentamos a Duvel (teor alcoólico 8.5%), que eles chamam de “golden ale”. Eu já conhecia a Duvel e está na minha lista de favoritas. Depois veio a Saison DuPont (teor alcoólico 6.5%), uma cervejinha meio sem graça. As “saison” são cervejas estilo “pale ale” historicamente produzidas em fazendas de certa região da Bélgica para consumo dos trabalhadores durante a estação da colheita.  Definitivamente, não vai para minha lista de favoritas. Depois veio a Rodenbach Grand Cru (teor alcoólico 6%), que como cerveja é um ótimo champanhe.  Eu já disse que os belgas são criativos, e por isso eu perdôo a licença poética de chamar a Rodenbach de cerveja. Como disse Eduardo, ele ficaria muito chateado de pedir uma cerveja num bar e receber aquilo. Próxima cerveja, a Girardin Black Label Geuze (teor alcoólico 5%). Bem, as Geuze, um tipo de Lambic, são cervejas extremamente doces e produzidas de fermentação espontânea. Igualzinho a deixar um alimento fora da geladeira para estragar, ou melhor, fermentar. A Girardin tinha gosto de cerveja estragada. O professor já tinha avisado que Geuze não é para qualquer um, precisa-se desenvolver um “acquired taste”.  Se você for a um bar e ver Lambic, Gueuze, ou Faro no rótulo, saia correndo.

As duas finais foram minhas favoritas (junto com a Duvel), a Westmalle Dubbel (teor alcoólico 7%) e a Westmalle Tripel (teor alcoólico 9.5%). As Dubbel e Tripel são um bom exemplo de trappist beer e se diferenciam pelo alto teor alcoólico (em torno de 6% – 7% para as Dubbel e 7% – 10% para as Tripel). A Dubbel é ótima e foi o consenso na nossa classe; a Tripel já é mais doce, portanto não agrada certos paladares.

Não posso deixar de contar que Eduardo, apesar de tanta cerveja, se esmerou em aprender e era o aluno que mais fazia perguntas. A certa hora, depois de tanta inquisição, o professor virou e perguntou com o que ele trabalhava. Meio tímido, Eduardo disse que trabalhava com software. “Aha”, disse o professor, “Microsoft, right?”, como se o fato de trabalhar na Microsoft explicasse um bocado de coisa no comportamento de uma pessoa (de fato, alguma coisa se explica). Como para se precaver, o professor perguntou quantos na classe de 15 -18 pessoas trabalhavam na Microsoft, e tinham mais dois. “Acho que o fato de estarmos em Seattle implica sempre ter um ou outro da Microsoft no nosso meio”, conformou-se o professor, num tom resignado. Ah, esses engenheiros ;-)

Advogados e Engenheiros

O otimista acha que o copo está  meio cheio; o pessimista acha que o copo está  meio vazio; e o engenheiro acha tão somente que o copo é muito grande para a quantidade de água que ele contêm. Me deparei com essa piadinha de engenheiro dia desses e mandei para Eduardo, que se identificou demais com o personagem do engenheiro na piadinha. Esse é o maior problema dos engenheiros: diretos, precisos, práticos, não gostam de meias palavras e devaneios.

Como a principal área de trabalho no meu grupo na firma é desapropriação, nós lidamos muito com engenheiros (com os quais conversamos, por exemplo, sobre os projetos que levaram à necessidade de desapropriar certo imóvel) e ”appraisers” (os avaliadores dos imóveis, para que a parte desapropriadora possa dar uma oferta justa pelo imóvel) . Todo mundo sabe que eu amo geeks, como eu já deixei bem claro num post anterior. Mas eu percebo que meus advogados não tem grande paixão pelos engenheiros, pelo mesmo motivo que (eu acredito) os engenheiros se amam.

Começa pelo fator “não quero me comprometer demais, mas vou deixar tudo explicadinho porque daí ninguém pode alegar que não sabia dos fatos”. É mais ou menos assim: o engenheiro diz “vamos nos encontrar hoje à noite às 8 da noite”. O advogado diz, ou melhor, escreve ”eu tenho um compromisso às 7 da noite, que deve levar uns quarenta minutos, como relatei ontem na reunião onde discutimos assunto tal, daí que se eu levar em consideração o fato de levar 20 minutos dirigindo até o restaurante qual, localizado no endereço tal qual, que escolhemos de comum acordo quando conversamos ontem na mesmíssima reunião sobre o assunto tal , então estamos de acordo de 8 horas é um horário conveniente para todas as partes”. Você não quer se comprometer demais que vai estar lá às 8 da noite, porque se o compromisso das 7 se prolongar você não quer ser acusado de não cumprir com o horário, então você deixa claro que tem outro compromisso antes; mas também você não deve voluntariar muita informação, daí que você não pode dizer qual o compromisso anterior; por outro lado, você quer deixar tudo documentado, porque se o fulaninho engenheiro for no restaurante errado, você quer ter a prova por escrito que vocês tinham concordado previamente em ir ao restaurante qual localizado no endereço tal qual.

Regra de ouro de qualquer advogado que se preze: tudo por escrito. Esse é um dos grandes pontos de discussão no nossa casa: Eduardo diz que eu sou prolixa; eu já acho que Eduardo deveria explicar melhor a situação para se precaver de problemas futuros. Quando estávamos fazendo a reforma da casa, por exemplo, apesar de ser muito mais fácil e eficiente ligar para o contractor e explicar a situação (que é o que Eduardo engenheiro fazia), eu preferia mandar um e-mail explicando todo o  histórico do problema, desde o dia em que resolvemos comprar a casa. E se for ligar, mande um e-mailzinho depois dizendo “só queria confirmar nossa conversa de dois minutos atrás quando discutimos isso e aquilo”. Sabe-se lá, no futuro, se tivéssemos problemas sérios, eu teria toda minha argumentação documentada em papel. Enquanto o engenheiro só teriai como prova o ”ele disse isso, eu disse aquilo”, que não tem peso tão grande na corte. Aha!

Engenheiros são suscintos. Tudo é na base de frases curtas e diretas.  Pior de tudo, eles não se conformam com respostas que não se limitem a “sim” ou “não”, como se na vida tudo fosse assim, tão matemático e preciso. Se você começa a explicar com um “veja bem”, eles não entendem e fiacam zangados. Caros engenheiros: a vida não é simples assim, e muitas vezes nem existe uma resposta certa. É por isso que vamos a julgamento, para que o juíz ou jurados nos dêm uma resposta que, por sinal, pode não ser a resposta correta. É isso aí, você pode passar a vida inteira sem saber a resposta. Será que você consegue???

Daí que muitas vezes, lá na firma, meus advogados reviram os olhinhos e soltam um “ah, mas fulano é engenheiro”, como se daí pudéssemos explicar todos os problemas existenciais do fulaninho. Haja paciência com esses engenheiros. Eu que o diga ;-)

Vende-se

Descobri dias desses de minhas ex-colegas da Heller Ehrman (via Facebook, onde mais?) que as obras de arte da Heller estavam indo a leilão  para pagar as dívidas da finada endividada. Fui no site da Bonhams conferir a “Coleção de Arte Contemporária da Heller Ehrman”, como eles mesmo chamavam. Eu desconhecia muitos dos quadros, afinal de contas eles estavam fazendo leilão das obras de arte de todos os escritórios. Mas seguindo a lista, às vezes eu me deparava com um quadro que me fazia lembrar dos vários anos que trabalhei na Heller. Tempos onde tudo era mais fácil e mais bonito. Pelo menos é isso o que eu acho agora, toda vez que eu venho com esse papo de quão legal a Heller era, Eduardo me vem com um “lembra daquela vez que você ficou p. da vida por ter que passar o mês de agosto inteiro no Alaska, onde a temperatura não passava dos 10C, quando aqui em Seattle estávamos tendo um dos melhores verões de toda a história” ou “lembra daquela outra vez …” Tá bom, tá bom, point taken, nem sempre tudo era tão bonito e fácil e legal.

O leilão veio e passou e eu não comprei nada. Primeiro, porque o gosto da Heller não é bem meu gosto. Depois, porque os quadros são caros, apesar de não parecerem. O quadro da Panela de Arroz, por exemplo, vendeu por $5,000. Por essa quantia, eu mobilho minha sala de jantar inteira. O quadro dos Homenzinhos Flutuantes era um dos favoritos da turma. Ele ficava bem na escada, e era bem sugestivo descer a escada com aqueles homenzinhos flutuando no nada. Pois é, vendeu por $3,600, nada mal para um quadro que não me parece muito difícil de fazer.

O meu quadro favorito sempre foi o da Banana Reclinando (título oficial), carinhosamente chamado do quadro da Banana Controversial. O quadro tem de tudo: tem uma banana, tem várias cherries, e tem um poema! “Do outro lado da sala tinha uma banana controversial … sozinha.”  Esse quadro ficava numa sala de conferência onde já tive várias reuniões … chatas, interessantes, intensas.  Nunca parei para pensar o que os clientes achavam daquele quadro, mas você tem que admitir que não é o tipo de quadro que passa desapercebido. Era a “sala de conferência com o quadro da banana”, e como a própria frase, nunca deixou de ser uma banana controversial.  Fiquei tentada, mas o quadro vendeu por $3,500 e, bem, com esse dinheiro eu compro vários pares de sapato e Eduardo compra várias bugigangas eletrônica para nossa casa.

Quão difícil é pintar homenzinhos flutuando e bananas com cherries? Acho que está na hora de repensar minha carreira. 

As Resoluções

Por aqui, sem muita novidade. Comecei o ano sem muita criatividade, daí os blogs espaçado. Esse ano começa sem muita emoção – nada de mudança ou reforma de casa - e acho que desacostumei com essa vidinha devagar. Mas procuro preencher esse vazio de várias formas, uma delas inventando resoluções para mim e para os outros.

O Oscar, coitado, foi minha primeira vítima. Resolução seríssima de ano, dele e de metade do planeta: perder peso. Começamos levando ele no veterinário para ficar quite com as vacinas. Para nossa surpresa, ele tinha engordado dois pounds desde o ano anterior. Dois pounds para mim significa um final de semana animado e regado a vinhos, queijos e bolo de chocolate, mas para o pobre Oscar dois pounds significa um bocado de pounds. O veterinário nos alertou para o fato de muitos gatos hoje em dia ficarem com diabete por causa da obesidade, e eu também decidi que minha resolução de ano é não cuidar de um gato diabético. Daí que agora a comida dele está regrada. Ele anda decidido a perder os dois pounds, tanto que anda levando a dieta a sério. Vez por outra ele fica zangado (devo dizer, bastante zangado) pela falta de comida, e como ele já percebeu que eu e Eduardo somos os ”alimentadores”, dana a miar grosso para nosso lado. Mas não posso culpar o Oscar, atire a primeira pedra aquele que não fica de mal humor quando está de dieta.

Minha resolução de ano foi procurar viajar mais. “Viajar mais do que vocês viajam?”, perguntou um amigo assombrado. Bem, acho que sempre pode-se viajar mais do que se viaja. Eu já estou com minha agenda do primeiro semestre já lotada de viagens. Mas admito que não se trata de uma resolução especificamente, já que viajávamos com frequência. Daí que eu inventei outra resolução para mim: ser mais sociável! Não me acho uma pessoa antipática e desagradável de jeito nenhum, mas reconheço que não me esforço muito para fortalecer vínculos de amizade. Daí que comecei o ano mandando e-mails para minhas ex-colegas da Heller para almoços e happy hour, e também aproveitei para me “entrosar” mais com minhas colegas paralegals. O resultado é que ando com uma vida social bem agitada, ao ponto de eu não saber quanto tempo Eduardo vai aguentar com tanta agitação.

E Eduardo, qual foi a resolução dele? Bem, sendo Eduardo um homem crescido, deixei que ele mesmo escolhesse. Se me lembro bem, ele comentou que o que ele gostaria de fazer seria fazer mais coisas que ele gosta. Sacou? Bem, como a rotina dele não mudou em absolutamente nada, eu acredito que o que ele gosta mesmo é da vida que ele tem. Nada mal, o ruim é gostar da vida dos outros. Ou da esposa dos outros, aí não rola. Mas enquanto ele continuar fazendo o que gosta (desde que não envolva quebrar os votos de casamento), eu continuar me ”entrosando” socialmente, e o Oscar continuar firme e forte com a dieta, mesmo que não gostando, estamos todos em harmonia nessa casa.



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