Domingo passado fomos para uma aula sobre cerveja belga, num bar (como não poderia deixar de ser), com professor e tudo. Deve ser um emprego maravilhoso, não? Passar o dia estudando sobre (e experimentando) cerveja parece algo que eu poderia fazer o resto da minha vida.
Durante a “aula”, nós experimentamos sete tipos de cerveja diferente, enquanto o “professor” explicava as características de cada cerveja, um pouco da história da Bélgica, diferença entre cervejas belgas … pelo menos isso é o que me lembro até a quinta cerveja, o que comprova que estudar bebendo cerveja não é uma boa idéia. Antes de entrar nos específicos de cada cerveja, aqui vão umas linhas gerais. Há vários tipos de cerveja belga, o que é bem impressionante para um país tão pequeno. Os belgas são bem criativos com cerveja, daí que às vezes é meio difícil classificar certas cervejas. Existem as “white beers” (cervejas brancas) que são de trigo e, segundo Eduardo, tem gosto de coentro. Não é das minhas favoritas, apesar de eu adorar cerveja de trigo.
Há as famosas “trappist beers”, e essas são interessantes. Trata-se de cervejas que são preparadas num monastério trapista (não tenho a mínima idéia se existe essa palavra em português, mas aí vai). Para ter a denominação de “trappist beer”, a cervejaria tem que estar dentro ou nas proximidades do monastério, os monges têm que participar da produção da cerveja, e o lucro com a venda tem que ser usado para caridade ou para auxílio ao monastério. Hoje há somente sete monastérios que se qualificam para produzir a “trappist beer”, seis deles na Bélgica (sendo a Chimay, uma das minhas favoritas, uma delas) e um na Holanda. Não confundir “trappist beer” com “abbey beer”, que, por sua vez, são cervejas produzidas por cervejarias comerciais que têm certos “laços” com os mosteiros. Uma das minhas favoritas nesse estilo é a Leffe.
Pois bem, de volta à aula. Primeiro experimentamos a Duvel (teor alcoólico 8.5%), que eles chamam de “golden ale”. Eu já conhecia a Duvel e está na minha lista de favoritas. Depois veio a Saison DuPont (teor alcoólico 6.5%), uma cervejinha meio sem graça. As “saison” são cervejas estilo “pale ale” historicamente produzidas em fazendas de certa região da Bélgica para consumo dos trabalhadores durante a estação da colheita. Definitivamente, não vai para minha lista de favoritas. Depois veio a Rodenbach Grand Cru (teor alcoólico 6%), que como cerveja é um ótimo champanhe. Eu já disse que os belgas são criativos, e por isso eu perdôo a licença poética de chamar a Rodenbach de cerveja. Como disse Eduardo, ele ficaria muito chateado de pedir uma cerveja num bar e receber aquilo. Próxima cerveja, a Girardin Black Label Geuze (teor alcoólico 5%). Bem, as Geuze, um tipo de Lambic, são cervejas extremamente doces e produzidas de fermentação espontânea. Igualzinho a deixar um alimento fora da geladeira para estragar, ou melhor, fermentar. A Girardin tinha gosto de cerveja estragada. O professor já tinha avisado que Geuze não é para qualquer um, precisa-se desenvolver um “acquired taste”. Se você for a um bar e ver Lambic, Gueuze, ou Faro no rótulo, saia correndo.
As duas finais foram minhas favoritas (junto com a Duvel), a Westmalle Dubbel (teor alcoólico 7%) e a Westmalle Tripel (teor alcoólico 9.5%). As Dubbel e Tripel são um bom exemplo de trappist beer e se diferenciam pelo alto teor alcoólico (em torno de 6% – 7% para as Dubbel e 7% – 10% para as Tripel). A Dubbel é ótima e foi o consenso na nossa classe; a Tripel já é mais doce, portanto não agrada certos paladares.
Não posso deixar de contar que Eduardo, apesar de tanta cerveja, se esmerou em aprender e era o aluno que mais fazia perguntas. A certa hora, depois de tanta inquisição, o professor virou e perguntou com o que ele trabalhava. Meio tímido, Eduardo disse que trabalhava com software. “Aha”, disse o professor, “Microsoft, right?”, como se o fato de trabalhar na Microsoft explicasse um bocado de coisa no comportamento de uma pessoa (de fato, alguma coisa se explica). Como para se precaver, o professor perguntou quantos na classe de 15 -18 pessoas trabalhavam na Microsoft, e tinham mais dois. “Acho que o fato de estarmos em Seattle implica sempre ter um ou outro da Microsoft no nosso meio”, conformou-se o professor, num tom resignado. Ah, esses engenheiros