Prosperidade Caótica

O que mais me surpreendeu da minha viagem ao Brasil dessa vez foi a prosperidade caótica pela qual o país passa. O setor imobiliário anda uma maravilha, pelo menos em Salvador - centenas de prédios em construção e crédito menos difícil (não fácil, pois nada é fácil no Brasil), o que facilita a venda de imóveis (boom imobiliário e facilidade de crédito me lembra um pouco a situação pela qual os Estados Unidos passou antes da crise, mas isso é assunto para outro dia). Você consegue ver a prosperidade econômica pela enorme quantidade de carros  na rua, inclusive carros caros. O que me leva a falar do trânsito, que está caótico como nunca vi.

Por um lado, o trânsito melhorou, e muito. Há alguns anos começaram a implementar os radares, e por conta disso as pessoas não dirigem mais tão rápido. Daí que quando você se envolve num acidente, a chance de morrer é menor. Agora está o maior caso com a política de tolerância zero a motoristas alcoolizados, daí que muita gente pensa duas vezes antes de beber e dirigir. Como disse um amigo nosso, “não somos mais livres nesse país para fazermos como bem entendemos”. Por outro lado, continua a história de dirigir colado na traseira do carro da frente, cortar outros carros tanto quanto possível e dar espaço para outros carros o mínimo possível. Enfim, nada fora do normal, somente a típica falta de educação brasileira.  Dirigir no Brasil envolve vários “quase acidentes”. Como diz Eduardo, tudo é mais emocionante. E haja coração para tanta emoção.

Brasileiro é um povo reclamão, daí que tudo está ruim. A enorme quantidade de carro na rua se deve à prosperidade econômica pela qual o país passa, e muita gente preferia que não fosse assim. Afinal de contas, não há infraestrutura para tanto carro e não há perspectiva das coisas melhorarem. E há também a proliferação das motos, pois muita gente não tem dinheiro para compar carro mas pode comprar uma moto, para assim poderem trafegar entre os carros e destruir os espelhos retrovisores de quem estiver na frente.

Ouvi de outro amigo nosso, ao comentar sobre a justiça baiana, que a coisa tem que melhorar muito para ficar ruim. Assim são as coisas no Brasil. Vou dar um exemplo. Há anos fomos à Itália, um país que eu classifico como o zoneado civilizado. Por algum motivo a Itália está caracterizada como primeiro mundo, mas a sensação quando se visita é um tanto quanto terceiro mundo – falta de educação no trânsito, primeiro-ministro que não é lá essas seriadades todas e por aí vai. Pois bem, o Brasil tem que melhorar muito para virar a Itália. E vou te contar, passar duzentos anos melhorando para virar Itália é de doer.

Como disse um outro amigo nosso, prefiro morar numa Inglaterra falida a morar num Brasil próspero. Eu concordo. Ouvi dizer que a crise no Brasil não foi tão mal assim. Pois eu prefiro os Estados Unidos com crise (e quem mora lá sabe que não foi fácil) ao Brasil próspero. Mas há vantagens em se morar no Brasil. Serviço é barato, daí que você pode ter uma empregada em tempo integral em sua casa, babá para seus filhos (todos os nossos amigos com filho no Brasil tem babá) e caseiro, tudo ao mesmo tempo! O clima é quente, há praias e carnaval. E muitos feriados. Pena que eu não dê bola para nada disso.

Vai ver o problema desse mundo é que ele é redondo. Se fosse quadrado ou retangular, talvez as coisas fossem mais fáceis…

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3 Responses to “Prosperidade Caótica”


  1. 1 Thiago Hirai January 7, 2010 at 2:51 pm

    Lembrei disso aqui:

    Mundo mundo vasto mundo
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.

    (http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema001.htm)

  2. 2 Thales January 8, 2010 at 3:39 am

    Outro dia parei para pedir informações num bar de posto de gasolina, em União da Vitória, Paraná. O motoqueiro com quem falei achou mais fácil ir na frente do que explicar o caminho. Afinal, ele já estava de saída mesmo, e era caminho para ele. Então ele deu a última golada na latinha de cerveja, jogou-a fora, e subiu na moto.

    Em Floripa vimos um motorista descer do carro segurando uma latinha de cerveja aberta. No início achamos que era da namorada dele, até ela descer segurando a própria garrafa de cerveja, também aberta.

    Pelo que vi, aqui já “arredondaram” o zero do tolerância zero.

  3. 3 Nara January 9, 2010 at 9:36 am

    Ah, e ouvimos outra muito boa tambem. Se um policial te parar numa blitz, vai te perguntar se é “com bafômetro ou cem [reais] bafômetro” Sacou?

    Ainda acho que o problema é devido a forma geométrica do mundo…


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