Archive for January, 2010

Rick Steves

Sábado passado fomos para uma apresentação de Rick Steves, uma de nossas celebridades locais. Para quem não conhece Rick Steves, ele escreve guias de turismo específicos para a Europa e também tem uma empresa que oferece tours para aquela região. O evento durava o dia inteiro de sábado, com várias apresentações sobre os tours que a empresa dele oferece. A última apresentação do dia foi com ele, no qual ele contou a história dele e de como a empresa se formou. Assim como a família Frommer, tudo aconteceu meio que por acaso.

Tudo começou há muitos e muitos anos atrás. Rick Steves nasceu, cresceu e ainda mora em Edmonds, uma cidade ao norte de Seattle. O pai dele tinha uma loja de piano e viajava com frequência à Europa a trabalho. A primeira viagem dele à Europa foi aos 14 anos. Adorou, e um pouco mais tarde na adolescência começou a viajar sozinho. A vida dele era dar aula de piano para custear os passeios para a Europa. Mais tarde foi se profissionalizando e fazia tours pequenos, com uma minivan, com o propósito tão somente de pagar a viagem. O filão foi quando ele percebeu que faltava muita informação para quem queria viajar sozinho, daí ele começou a escrever uns guias aqui e acolá, e até preparou uns cursos para pessoas interessadas em viajar pela Europa. O negócio foi crescendo e dali a pouco ele já estava escrevendo guias profissionais, fazendo programas de TV e divulgando sua empresa de turismo.

Rick Steves é uma pessoa bastante idealista e politizada. E adora viajar. Os tours deles tendem a ser um pouco mais independentes, tanto que a empresa dele começou com o nome de “Through The Back Door” (ou “Pela Porta dos Fundos”). Devo acrescentar, os tours deles são mais caros do que a média, o que se deve ao fato de serem grupos menores (máximo de 25, ao contrário dos tours normais de 40-50 pessoas), os hotéis serem mais boutique ao contrário dos hotéis de cadeia, e ele se empenhar muito em escolher bem os guias que ele usa. Rick Steves também tem um blog , que eu acompanho com frequência e adoro.

Há algo de muito interessante que acontece com as pessoas que tem fascínio por viagem. Assim como pessoas que tem fascínio por carro, ou moto, ou tecnologia, ou qualquer outra coisa, assim que você descobre alguém que “pertence ao seu grupo”, você sente uma conexão de imediato, mesmo que você não tenha mais nada a ver com a outra pessoa. Americano é um povo que em geral trabalha muito e viaja pouco, principalmente quando se trata de viagens longas. Eu e Eduardo em geral fazemos uma viagem longa no ano, que classifico como viagem de 12 a 14 dias (às vezes até duas, se for ano de ir ao Brasil). Em geral os empregadores nos Estados Unidos não gostam que você faça uma viagem tão longa. Afinal de contas, ficar fora do trabalho duas semanas exige uma organização muito melhor da sua parte e um envolvimento muito maior de outras pessoas para que seu trabalho não fique inacabado e emperrando outros projetos. No meu trabalho atual, assim como no meu trabalho antigo, todo mundo era muito legal quando eu abria a boca para dizer que ia tirar duas semanas de férias, apesar de eu saber que a preferência deles era que eu tirasse uns três dias aqui e acolá ao invés de 10 dias de uma vez só. Mas sabe o que me safava nessa história toda? O fato de ter um ou outro advogado no meu grupo que simplesmente AMAVA viajar. Eles clicavam comigo, eu clicava com eles, e como tudo nesse mundo, nada melhor do que alguém que entende suas prioridades e tem cacife e poder de decisão do seu lado. Nesse ponto, não dá para reclamar muito da vida. Aliás, não dá para eu reclamar da minha vida, e ponto. Tenho que admitir, ela tem me tratado direitinho ;-)

Guloseimas

Voltando ao assunto do voltei americanizada, uma das coisas que todo brasileiro expatriado ADORA fazer quando volta ao Brasil é saborear as comidinhas – o tempero, o recheio, o sabor, o tudo. Comigo não é diferente. Até essa última viagem. Fui sonhando em comer a pizza maravilhosa da Companhia da Pizza, o crepe de dar água na boca do Mariposa, e ir naqueles restaurantezinhos para saborear os temperos locais. Mas dessa vez, diferente das outras vezes, foi meio decepcionante.

Comecemos pela pizza.  Fui lá e pedi uma pizza de catupiry com frango. Estava boa, sim, mas não tão boa quanto a pizza de rúcola com prosciutto da Via Tribunali.  Quanto ao crepe, fomos no Mariposa algumas vezes. Da primeira vez, o sorvete parecia gelo. Da segunda, a massa estava meio puxenta. Acho crepes muito mais gostosos aqui em Seattle, no La Cote e no 611 Supreme.  É verdade que você  não vai achar crepe com recheio de doce de leite pelas bandas de cá, mas de que adianta doce de leite se a massa parece borracha??? Também comemos em alguns outros restaurantes, alguns até recomendados, e nada me chamou muito a atenção. E apesar do calor, evitava tomar sorvete porque os poucos que tomei deixaram muito a desejar se comparados com a Mora ou com o Molly Moon.

Foi tudo ruim? Claro que não, e os 4 pounds que eu ganhei nessa viagem são prova disso. Vamos começar pelos doces. Uma das minha docerias favoritas, perto da casa dos pais de Eduardo, tinha uma tal torta casadinho (bolo branco e bolo de chocolate com recheio e cobertura de brigadeiro) que era muito boa demais. E por demais calórica.  Fui lá umas 2 … 3 … 4  vezes. Também passamos três dias numa pousada em Praia do Forte, do qual o ponto alto era o café da manha. Cuzcuz de milho, cuzcuz de tapioca, bolinho de estudante, banana frita, bolos, aimpim … Mal acabava o café da manhã e já ia tomar as roskas. Não sei se o povo do sul conhece, mas roska é uma batida de fruta com vodka – que nem caipirinha, mas usa-se vodka ao invés de cachaça e  faz-se com todo tipo de fruta – caipiroska, sirigueloska, cajuroska, kiwiroska . Roska cai muito bem com peixe frito, bolinho de peixe e acarajé na barraquinha da praia.

Voltando para casa, claro, a primeira providência foi passar a semana na base da sopa, peixe grelhado e salada para desintoxicar. Consegui perder parte do peso que tinha ganho, que foram devidamente reconquistados depois de um final de semana regado a vinho, foundue de queijo e chocolate. Já vi que minha resolução de ano não durou muito ;-(

Prosperidade Caótica

O que mais me surpreendeu da minha viagem ao Brasil dessa vez foi a prosperidade caótica pela qual o país passa. O setor imobiliário anda uma maravilha, pelo menos em Salvador - centenas de prédios em construção e crédito menos difícil (não fácil, pois nada é fácil no Brasil), o que facilita a venda de imóveis (boom imobiliário e facilidade de crédito me lembra um pouco a situação pela qual os Estados Unidos passou antes da crise, mas isso é assunto para outro dia). Você consegue ver a prosperidade econômica pela enorme quantidade de carros  na rua, inclusive carros caros. O que me leva a falar do trânsito, que está caótico como nunca vi.

Por um lado, o trânsito melhorou, e muito. Há alguns anos começaram a implementar os radares, e por conta disso as pessoas não dirigem mais tão rápido. Daí que quando você se envolve num acidente, a chance de morrer é menor. Agora está o maior caso com a política de tolerância zero a motoristas alcoolizados, daí que muita gente pensa duas vezes antes de beber e dirigir. Como disse um amigo nosso, “não somos mais livres nesse país para fazermos como bem entendemos”. Por outro lado, continua a história de dirigir colado na traseira do carro da frente, cortar outros carros tanto quanto possível e dar espaço para outros carros o mínimo possível. Enfim, nada fora do normal, somente a típica falta de educação brasileira.  Dirigir no Brasil envolve vários “quase acidentes”. Como diz Eduardo, tudo é mais emocionante. E haja coração para tanta emoção.

Brasileiro é um povo reclamão, daí que tudo está ruim. A enorme quantidade de carro na rua se deve à prosperidade econômica pela qual o país passa, e muita gente preferia que não fosse assim. Afinal de contas, não há infraestrutura para tanto carro e não há perspectiva das coisas melhorarem. E há também a proliferação das motos, pois muita gente não tem dinheiro para compar carro mas pode comprar uma moto, para assim poderem trafegar entre os carros e destruir os espelhos retrovisores de quem estiver na frente.

Ouvi de outro amigo nosso, ao comentar sobre a justiça baiana, que a coisa tem que melhorar muito para ficar ruim. Assim são as coisas no Brasil. Vou dar um exemplo. Há anos fomos à Itália, um país que eu classifico como o zoneado civilizado. Por algum motivo a Itália está caracterizada como primeiro mundo, mas a sensação quando se visita é um tanto quanto terceiro mundo – falta de educação no trânsito, primeiro-ministro que não é lá essas seriadades todas e por aí vai. Pois bem, o Brasil tem que melhorar muito para virar a Itália. E vou te contar, passar duzentos anos melhorando para virar Itália é de doer.

Como disse um outro amigo nosso, prefiro morar numa Inglaterra falida a morar num Brasil próspero. Eu concordo. Ouvi dizer que a crise no Brasil não foi tão mal assim. Pois eu prefiro os Estados Unidos com crise (e quem mora lá sabe que não foi fácil) ao Brasil próspero. Mas há vantagens em se morar no Brasil. Serviço é barato, daí que você pode ter uma empregada em tempo integral em sua casa, babá para seus filhos (todos os nossos amigos com filho no Brasil tem babá) e caseiro, tudo ao mesmo tempo! O clima é quente, há praias e carnaval. E muitos feriados. Pena que eu não dê bola para nada disso.

Vai ver o problema desse mundo é que ele é redondo. Se fosse quadrado ou retangular, talvez as coisas fossem mais fáceis…