Archive for December, 2009

Na Academia

Estou aproveitando minha estadia no Brasil para estudar os costumes dos nativos locais. Unindo minha curiosidade cultural ao útil, resolvi ir à academia, da qual participam minha mãe e minha irmã. Em linhas gerais, academia no Brasil é como tudo no Brasil: serviço é baratíssimo, daí que o nível de atenção que você recebe em relação ao que paga é muito maior, comparando-se com os Estados Unidos. Claro que os monitores atenciosos que ficam ali te ajudando nos aparelhos de musculação ganham uma mixaria, mas ninguém parece se importar muito com isso. E como eu sei que eles ganham uma mixaria? Bem, daí vai meu segundo ponto sobre a academia, que é como tudo no Brasil: todo mundo sabe da vida de todo mundo. Minhas informantes sabem do salário deles. E outras coisas mais, do tipo “aquele ali teve filho cedo, ó, agora tem vinte e poucos anos e está tentando estudar para o vestibular de medicina com dois meninos para criar. Como pode, né???”, ou “aquele ali, ó, todo dia pela manhã vai tomar o mingau da Dona Dora do outro lado da rua, se não se cuidar vai ficar é barrigudo.” E por aí vai.

Eu, acostumadíssima com o estilo americano do cada um por si, estranhei demais aquele nível de atenção dos monitores da academia, olhando sua postura e mandando você alongar. Agora estou até gostando. E as pessoas se tocam! Quem mora nos Estados Unidos sabe que as pessoas evitam se tocar o máximo possível, mas aqui eles gostam dessa “troca de energia” que é uma coisa séria. Com isso eu não me acostumei, afinal de contas, já estou americanizada do que até eu imaginava. Ah, e as pessoas vestem roupas de ginásticas coloridas e estampadas.  Bem verão. Com isso também não me acostumei, até porque verde limão e bermuda de ginástica branca com bolinhas roxas ou estilo escama de cobra não combinam muito com meu estilo elegante americano metido a besta. Daí que resolvi comprar umas roupas de ginástica por aqui e tive a maior dificuldade.

Vendedora: “Olha só essas bermudinhas, bem coloridas, olha que estampa bonita!”

Eu: “Eh … tem alguma coisa lisa, tipo preto ou cinza?”

Vendedora: “Olha, tenho pouquíssimo, em geral só as senhoras mais velhas compram as bermudas pretas. Tem essa azulzinha aqui, você gostou?”

Eu: “Ótimo, é isso mesmo o que eu quero.”

Vendedora: “Está até na promoção, essa aí não vende muito bem…”

Muito simpática a vendedora, que por sinal também é dona da loja. Ela contou que ela mesma faz as bermudas (e também biquini, e também faz alteração de roupa e o que mais você precisar nessa vida), e engatou num papo muito legal com minha irmã.

Vendedora: “Olha, eu faço de tudo, remendo roupa, bainha de calça, encomenda de biquini, o que você precisar.”

Minha irmã: “Bom saber …”

Vendedora: “Esse negócio de fazer roupa para encomenda é meio complicado, porque às vezes o freguês não gosta e é a maior dificuldade. Essa mulher que acabou de sair daqui da loja mesmo, devolveu a peça porque não gostou. Ela mora em Praia do Forte e de vez em quando vem aqui. Mas é meio complicado, com frequência ela não gosta das roupas que encomenda. Tem gente que é difícil assim mesmo.”

Vixi Maria, como o povo aqui conversa!

Feliz Natal, Prospero Ano, Blah Blah Blah

Domingo passado foi a festinha de Natal do meu grupo de aerobica da academia. Todo ano fazemos a festa na casa de alguem, convidamos os “assiduos”  e  os “nao tao assiduos” que participam das aulas, assim como os alunos que costumavam participar mas nunca mais foram porque decidiram que aula de 6 as 7 da manha e muito cedo para eles.  Cheguei na festa em boa hora, 15 minutos “fashionably late”, mas fui uma das ultimas a ir embora. Por que? Porque eu percebi que a medida que as pessoas iam saindo, as mulheres restantes (como voce pode imaginar, a maioria do grupo e mulher) danavam a falar da recem saida. Como eu queria saber da fofoca que corria e nao queria ser alvo da fofoca alheia, o jeito foi ir ficando. Mas sendo um grupo legal, as fofocas nao sao maldosas. E fofocar e tao bom, quem resiste?? Temos ate dois homens no grupo de aerobica, um deles meio suspeito. Claro, assim que eles saiu, passou ser o assunto da turma.

Aluna 1: “Voces acham que ele e gay?”

Professora: “Totalmente!”

Eu: “Tambem acho. Educado, boa forma fisica, e ainda trouxe uma lembrancinha para a dona da casa … homem perfeito assim so pode ser gay.”

O outro homem nao parece ser gay, mas ele dever estar nos 40′s e mora sozinho em Capitol Hill. Ou seja, igualmente suspeito.

Falar em Capitol Hill, e fato de que se trata do bairro gay de Seattle. Dia desses houve uma convencao de Papais Noeis no bairro. Acho que e uma tradicao, combina-se o dia e quem quiser vai para a rua vestido de Papai Noel. Mas tinha muito Papai Noel, e de varias especies – Mamae Noel, Doende Noel, Papai Noel de calca colada… e isso ai, Natal em Capitol Hill nao poderia deixar de ter Papai Noel gay.

Falar em Papai Noel, esse ano vamos passar o Natal no Brasil, dai que  nem animei a arrumar arvore ou enfeite de Natal. Quando eu morava em DC uma paralegal do meu grupo passou uma semana de dezembro na Tailandia a trabalho. Ela voltou morrendo de rir e contando que, onde ja se viu, nao existe pinheiro na Tailandia (tao ou mais quente do que o Brasil), mas mesmo assim o povo comprava pinheiros falsos e colocavam neve falsa e tudo falso, e que ela nunca pensou que eles fariam isso porque nao existe pinheiro em pais tropical, e que ela achou engracadissimo e interessantissimo que eles se dariam ao trabalho para ter um pinheiro, mesmo que falso. E voltando ao assunto do imperialismo americano, os tailandeses e brasileiros e mexicanos crescem vendo os desenhos e filmes americanos com Natal lindo de neve e pinheiro … O que ela queria que nos fizessemos? Usasse cacto ao inves de pinheiro? Se o Mickey Mouse tinha um pinheiro e o Pato Donald tinha um pinheiro e as atrized glamorosas de Hollywood tem um pinheiro, por que nos de pais tropical nao temos direito a um pinheiro? Cada uma…

Zé Carioca

Dia desses estava eu dirigindo na ponte da 520 quando vi uma águia paradinha num dos postes. Lá estava ela - linda, imponente, altiva, zelando por nossa nação do alto do poste da 520. Não pude deixar de parabenizar a boa escolha de quem quer que seja de ter escolhido a águia como símbolo dos Estados Unidos. Ao contrário do papagaio, símbolo do Brasil. Ou assim pensava eu, até que Eduardo me corrigiu dizendo que ninguém nunca afirmou que o papagaio era símbolo do Brasil. Fiz umas pesquisas na internete e, de fato, não achei nenhum documento oficial comprovando tal fato.

Já ouvi a teoria da conspiração de que foi Walt Disney que inventou essa história do papagaio ser o símbolo do Brasil quando criou o Zé Carioca. Eu nunca gostei muito do Zé Carioca – malandro, descansado, só queria saber de sombra e água fresca. Eu, porém, tenho a prova definitiva de que o papagaio é, de fato, o símbolo do Brasil: a bandeira brasileira! Quem nesse mundo, me diga, inventaria de colocar verde, amarelo e azul junto e achar que isso ficaria bom? Eu só consigo justificar uma mistura de cor tão desagradável aos olhos pelo fato desse alguém ter olhado o papagaio, tão simpático e conversadeiro, e pensando que já que aquele seria o símbolo da nação, bem que poderíamos dar uma forcinha e fazer uma bandeira parecida.

Não posso deixar de pensar que é um símbolo bem colorido. E simpático. Nada imponente, mas boa praça.  E se você ainda levar em consideração o fato de que a Coca-Cola criou o Papai Noel, temos aí o exemplo perfeito do imperialismo americano definindo nosso conceito de mundo. Eu não consigo pensar no mundo sem Papai Noel, e acho que, se foi o Walt Disney de fato que inventou essa história de símbolo do Brasil ser o papagaio, acho que acertou na mosca. Esses americanos … o que será que eles vão aprontar agora???

Michiganians Em Paris

Eduardo e eu adoramos um programa da HGTV chamado House Hunters International.  A historinha do programa é sempre a mesma – uma pessoa/família/casal à procura de uma casa em outro país. Eles mostram os compradores olhando três casa e no final do show eles mostram qual a casa escolhida. Meus favoritos, como não poderia deixar de ser, são as buscas por casas na Europa. O último programa que vimos, por exemplo, mostrava um casal de Michigan com dois filhos pequenos (daí o título do episódio e desse post) em busca de uma casa em Paris. Ele tinha sido relocado pela empresa que trabalhava e a família toda se mudou de mala e cuia para Paris. A vida deles nos Estados Unidos era bem comfortável, como nós e nossos amigos que moram por aqui podem atestar – casa grande no subúrbio, fartura, cachorro …

Logo de cara, eles desistiram de comprar um imóvel e resolveram alugar (admito, foi a primeira vez que vi isso acontecendo no programa). Eles não queriam gastar mais de U$4,300 por mês de aluguel, o que é um budget bem generoso na minha opinião, mas acontece que, ao contrário de Seattle, U$4,300 não faz milagre em Paris.  Daí que o primeiro apartamento que eles viram era muito bonitinho, iluminado, num daqueles prédios lindos de Paris, e bem localizado no centro da cidade. O problema? O apartamento era pequeno, com cerca 800 sf (cerca de 73 m2), e bem caro – o aluguel quase passava do budget deles. A segunda opção era um apartamento não tão legal, numa localização fora do centro (fora da área turística, digamos assim, e mais perto da área onde moram os imigrantes revoltados da França que tanto vemos na TV), e nem por isso tão abaixo do budget deles. Ainda por cima, parecia que era habitado por hippies, com tudo muito colorido. A terceira opção, não tão legal quanto a primeira mas não tão ruim quanto a segunda, ficava fora do centro mas custava uns $3,000 de aluguel e era uma casa geminada. Qual foi a casa que ganhou?

Antes de revelar o final da história, queria contar os fatos mais interessantes do programa. Americanos (e nisso estou incluindo eu e Eduardo) gostam de comforto – cômodos grandes para colocar móveis grandes para pessoas cada vez maiories. Daí que todos os apartamentos que eles viam tinham o mesmíssimo problema de “vixi (licença poética), nossa cama “king size” com quatro “posts” não vai caber nesse quarto”. Assim é a vida em Paris, paga-se mais por menos. E não tem onde estacionar. Outro problema era a segurança dos filhos. Americano é um povo estressado e quem mora aqui fica estressado por pura e simples osmose. Eu reconheço e admito, daí que quando você vai para a Europa e vê aquele bando de gente andando de bicicleta com o filho na cestinha da frente,  SEM capacete NEM qualquer outro tipo de proteção, fica assombrado com aquele povo tão despreocupado. E os bares, com aquele bando de criança e mulher grávida envoltos naquela fumaça de cigarro? Absurdo dos absurdos! O maior problema da casal de Michigam eram as janelas, que iam de cima a baixo da parede e sem proteção para criança, e a varanda que tinha um gradil de 1 metro de altura que, Deus do Céu, os meninos podem voar por cima. Numa das casas que eles olharam, a coisa foi mais ou menos assim:

Mulher de Michigan: “Mas essas janelas são um perigo.”

Corretor: “Por quê, você não gosta das janelas?”

Mulher de Michigan: “Não é isso, mas elas vão até embaixo, abrem para fora e não tem proteção. É um perigo para quem tem criança!!!”

Corretor (coçando a cabeça): “E se você falar com seu filho que não é para pular da janela, será que ele pula mesmo assim?”

Dava para ver que no final o corretor estava intrigado com essa história de criança e janela, sem entender o porque da preocupação. E deu para ver que a mulher estava cada vez menos encantada com Paris e com aquela vida onde tudo é caríssimo,  sua cama king size não cabe nos ambientes e o povo não dá, digamos assim, o estresse devido ao evidente problema de crianças e  janelas.

Pois bem, no final eles ficaram com a casa número três, e que eu saiba os meninos continuam são e salvos.  Os móveis, por outro lado,  ficaram um tanto quanto apertados. A sala de estar foi meio ambiente favorito, mais do que o quarto. Eles  “decoraram” o ambiente com um sofá florido, duas poltronas listradas e um tapete oriental (e aqui não estou usando de licença poética). De qualquer forma, eu tenho que tirar o chapéu aos Michiganians, que apesar de terem sua vida muito legal e comfortável no U S and A, decidiram largar casa e cachorro, apesar de não terem largado dos móveis, para tentar uma vida diferente em Paris. Eu que o diga, quando nada vale pela lição de vida ;-)