Alguém estava me perguntando esses dias sobre o resultado dos meus julgamentos. Afinal de contas, eu contei a história da driveway, contei a história da fábrica de gelo, mas não contei sobre o veredito.
Antes de mais nada, trata-se de um caso civil, ou seja, não tem essa história de culpado ou inocente. Ninguém fez nada errado, é só uma questão de dinheiro. Muito dinheiro. Primeiro, vamos ao caso da driveway, onde estávamos representando o proprietário. Estávamos pedindo compensação pelo pedacinho do terreno que a cidade de Bothell precisava para alargar a pista, mais compensação para consertar a driveway, mais umas outras coisinhas mais. Por tudo isso, a cidade de Bothell estava oferecendo uns $300,000.00, e nosso cliente estava pedindo um pouco mais de $1,000,000.00. O que foi que os jurados decidiram? Bem, decidiram que $700,000.00 era uma compensação justa. A cidade de Bothell não ficou muito contente, mas nosso cliente ficou muito satisfeito, e isso é o que interessa para nós.
A fábrica de gelo, como vocês devem imaginar, é um pouco mais cara. Dessa vez, estávamos do lado do governo. Como não temos um mercado grande de fábricas de gelo na região de Seattle, ou até mesmo nos Estados Unidos, tivemos que ser criativos para dar um valor à fábrica: primeiro, avaliamos quanto custaria o terreno somente, sem prédio nenhum; depois, avaliamos o quanto custaria um prédio refrigerado (por exemplo, “warehouses” refrigeradas para guardar comida; finalmente, avaliamos o quanto custariam os equipamentos para fazer gelo … e voila, temos aí o preço da fábrica de gelo. Para cada fase dessa, claro, temos um expert. E ainda tínhamos um expert para montar a fábrica de gelo ideal. A idéia é mais ou menos assim: vamos construir uma fábrica de gelo com a mesma capacidade da existente, depreciar pelo fato de ser uma fábrica usada, e daí tirar o valor da compensação justa. Depois dessa ginástica matemática toda, nosso número acabou em torno de $9,800,000.00. O proprietário, por sua vez, queria construir exatamente a mesma fábrica, sem tirar um tijolo (que foi construída ao longo de vários anos e não é tão eficiente quanto uma fábrica nova) e não queria considerar o fator depreciação. Ele estava pedindo $16,000,000.00. O que foi que os jurados decidiram? Bem, decidiram que $11,400,000.00 era uma compensação justa. Não sei o que o proprietário achou disso tudo, mas nosso cliente ficou satifsfeito, e é isso o que interessa para nós.
Temos, ainda, os ”attorneys’ fees”, ou custas de advogado. Nesse caso, nós não ganhamos um percentual do veredito, mas cobramos por hora de trabalho, que foram muitas. Vou deixar os detalhes de lado, mas em linhas gerais, num caso de desapropriação, a parte que está desapropriando tem que mandar para o proprietário 30 dias antes do julgamento uma carta com a melhor oferta que consegue fazer para tentar entrar em acordo. Se o proprietário recusar a oferta e decidir ir a julgamento, e se ele conseguir um veredito no valor 10% a mais do que a oferta de 30 dias, a parte que está desapropriando tem que pagar as custas de advogado do proprietário. Se ele não conseguir, ele tem que arcar com suas custas processuais. No caso da driveway, nós conseguimos superar a oferta da cidade de Bothell (que foi em torno de $350,000) em 10%, daí eles (e não nosso cliente) que vão pagar a nossa conta. No caso da fábrica de gelo, a nossa oferta de 30 dias tinha sido $11,300,000.00, e como ele só conseguiu $11,400,000.00, menos de 10% de diferença, ele tem que pagar seus advogados.
Que bobagem pagar os advogados quando você ganha $700,000.00, não é? Posso dizer que não é bem assim. No caso da driveway, por exemplo, as custas de advogados (nós) ficaram em torno de $250,000.00. Se você incluir os experts, cópias e mais cópias de “notebooks” com “exhibits”, escanear todas as “exhibits” para colocar no laptop para apresentação etc etc etc, o grand total ficou em torno de $400,000.00. Se você deduzir isso dos $700,000.00, o nosso cliente terminaria com o mesmo valor que a cidade de Bothell tinha oferecido. E mais uma úlcera, coitado. Nada justo.
Do meu lado, posso dizer que acho mais fácil representar o governo do que o proprietário. Veja bem, o governo tem um “budget” para gerenciar, mas ninguém fica perdendo o sono por conta do que os jurados vão decidir. A posição do nosso cliente governo é que, se os jurados decidiram pelo proprietário, bem, é porque nossos números estavam errados e o proprietário merece. Representar o proprietário é outra coisa. Já pensou, por exemplo, se os jurados decidem dar a ele os $300,000.00 que a cidade de Bothell estava propondo? E depois ainda recebe uma conta de $400,000.00 de advogado? É ou não é de dar úlcera em qualquer pessoa???
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