Archive for November, 2009

Disnelylândia de Gelo

Estamos nós aqui passando o raríssimo final de semana prolongado na Disneylândia de Gelo, que nada tem a ver com a Fábrica de Gelo.  Trata-se de Whistler, Canadá, cidade maravilhosa e sonho dos esquiadores, perto de Vancouver e uma das cidades participantes dos Jogos de Inverno de 2010.  Whistler, ou pelo menos a Whistler que conhecemos, é uma vila pequena e compacta que tem tudo que você precisa para um final de semana prolongado – hotéis, restaurantes, mercadinho … De dia o programa é esquiar, à noite o programa são os bares e restaurantes. Me lembra um pouco a Disneylândia, no sentido de que é uma cidade um tanto quanto artificial (não há moradores por aqui, somente visitantes) e, como tal, os restaurantes e lojas são caríssimos, e não necessariamente bons.

Mas Whistler é uma cidade versátil. É uma cidade legal para solteiros, para casais sem filhos e para famílias. Eu e Eduardo, por exemplo, não esquiamos, apesar de já termos feito aulas de esqui e tentado algumas vezes. Mas nem por isso ficamos entediados. Hoje pela manhã acordamos e fomos comer um crepe no Crepe Montaigne, nossa creperia favorita de Whistler. Depois  pegamos o lift para a montanha e fizemos o que eles chama de “Peak 2 Peak”, que é uma gôndola que liga as duas montanhas de Whistler. Confesso que me deu uma pontinha de inveja daqueles esquiadores todos quando cheguei lá em cima, o que passou rapidinho assim que voltei à base da montanha, me acomodei num restaurante com uma vista maravilhosa e passei horas admirando a paisagem e os esquiadores. Primeiro foi o almoço (um sanduíche bastante “overpriced”), seguido de um chazinho e muita enrolação. À tarde ficamos descansando no quarto de hotel, que até lareira tem. É uma lareira muito charmosa que liga com um “timer” – você marca, por exemplo, 50 minutos de lareira, e fica ouvindo aquele “tic tac tic tac” do timer, até o tempo acabar. Lembra um pouco aqueles “timers” de bomba dos filmes de terroristas, tão populares ultimamente. À noite a programação é sair e tomar um vinho com tapas, seguido de uma sobremesa, mais um “irish coffee” … enfim, não tenho muito do que reclamar da minha estadia por aqui. Amanhã seguimos para Vancouver e passamos a noite lá, e domingo estamos de volta para nosso lar doce lar em Seattle.  Ah, se todos os finais de semana fossem assim ;-)

Cada Um Tem A Toupeira Que Merece

Tempos atrás estávamos conversando com uns amigos nossos que moram do outro lado da ponte e eles estavam se queixando do problema das toupeiras.  Ao falar em toupeira, me vem a cabeça aquele bichinho bonitinho e simpático que passa a vida cavando túneis e buracos. E aí está o problema, principalmente se a toupeira invoca de cavar buraco no seu quintal. Elas matam sua grama, destroem suas plantas, e ainda faz seu quintal parecer um queijo suíço. Not nice. Eles já tinham tentado de tudo permitido por lei para se livrar das toupeiras, mas até aquele momento as toupeiras estavam vencendo.

Aqui em Seattle temos outro tipo de toupeira, que é a toupeira humana. Nada de bichinho bonitinho e simpático fazendo túnel no seu quintal (que por sinal, concretamos para dar menos trabalho). Aqui temos seres humanos que, na calada da noite ou do dia, estacionam indevidamente na sua driveway, bloqueando sua passagem, e jogam porcaria no seu quintal da frente. Há meses atrás, ao acordamos num bonito dia chuvoso, fomos confrontados com um amontodado de equipamentos eletrônicos que alguém jogou na calçada em frente a nossa casa. Se me lembro bem, eram uns três monitores, duas CPUs, alguns teclados, e tinha até uma peça pequena de móvel. Tenho jeito melhor de se livrar de treco que você não quer do que jogar na calçada do vizinho???

Minha primeira reação, e aí admito que a toupeirice foi tomando conta de mim, foi de pegar tudo e jogar na casa do vizinho do lado. Daí viraria problema dele, é ou não é? Eduardo, muito educado e seguidor das regras de civilidade, disse que aquilo não era correto. Daí que fui investigar o assunto e descobri que existe um departamento em Seattle para “illegal dumping“, que se dedica a limpar as áreas públicas do lixo que as toupeiras humanas jogam por aí. Não são muito rápidos, tanto que eu liguei e duas semanas depois ainda não tinham aparecido, mas eventualmente eles levaram tudo embora. Ou o que restou. Como vocês podem imaginar, no período de duas semanas as coisas começaram a desaparecer. Afinal de contas, quem não se aproveitaria da oportunidade de levar para casa um monitor grátis que achou na rua, mesmo que esse monitor esteja lá tomando chuva há uma semana? Negócio da China!

Apesar de todas minhas reclamações, nossos vizinhos até que tem se comportado. Nunca mais jogaram nada na nossa calçada (se bem que esses dias vi uma geladeira na calçada do vizinho, que ficou lá uma semana ou mais) e nunca mais bloquearam nossa driveway (compramos uns cones para colocar na beirada da driveway, que foram devidamente e previsivelmente roubados, mas que surpreendentemente duraram meses). No momento, nossas toupeiras estão sob controle.

Veredito

Alguém estava me perguntando esses dias sobre o resultado dos meus julgamentos. Afinal de contas, eu contei a história da driveway, contei a história da fábrica de gelo, mas não contei sobre o veredito.
Antes de mais nada, trata-se de um caso civil, ou seja, não tem essa história de culpado ou inocente. Ninguém fez nada errado, é só uma questão de dinheiro. Muito dinheiro. Primeiro, vamos ao caso da driveway, onde estávamos representando o proprietário. Estávamos pedindo compensação pelo pedacinho do terreno que a cidade de Bothell precisava para alargar a pista, mais compensação para consertar a driveway, mais umas outras coisinhas mais. Por tudo isso, a cidade de Bothell estava oferecendo uns $300,000.00, e nosso cliente estava pedindo um pouco mais de $1,000,000.00.  O que foi que os jurados decidiram? Bem, decidiram que $700,000.00 era uma compensação justa.  A cidade de Bothell não ficou muito contente, mas nosso cliente ficou muito satisfeito, e isso é o que interessa para nós.
 A fábrica de gelo, como vocês devem imaginar, é um pouco mais cara. Dessa vez, estávamos do lado do governo. Como não temos um mercado grande de fábricas de gelo na região de Seattle, ou até mesmo nos Estados Unidos, tivemos que ser criativos para dar um valor à fábrica: primeiro, avaliamos quanto custaria o terreno somente, sem prédio nenhum; depois, avaliamos o quanto custaria um prédio refrigerado (por exemplo, “warehouses” refrigeradas para guardar comida; finalmente, avaliamos o quanto custariam os equipamentos para fazer gelo … e voila, temos aí o preço da fábrica de gelo. Para cada fase dessa, claro, temos um expert. E ainda tínhamos um expert para montar a fábrica de gelo ideal. A idéia é mais ou menos assim: vamos construir uma fábrica de gelo com a mesma capacidade da existente, depreciar pelo fato de ser uma fábrica usada, e daí tirar o valor da compensação justa. Depois dessa ginástica matemática toda, nosso número acabou em torno de $9,800,000.00. O proprietário, por sua vez, queria construir exatamente a mesma fábrica, sem tirar um tijolo (que foi construída ao longo de vários anos e não é tão eficiente quanto uma fábrica nova) e não queria considerar o fator depreciação. Ele estava pedindo $16,000,000.00.  O que foi que os jurados decidiram? Bem, decidiram que $11,400,000.00 era uma compensação justa. Não sei o que o proprietário achou disso tudo, mas nosso cliente ficou satifsfeito, e é isso o que interessa para nós.
Temos, ainda, os ”attorneys’ fees”, ou custas de advogado. Nesse caso, nós não ganhamos um percentual do veredito, mas cobramos por hora de trabalho, que foram muitas. Vou deixar os detalhes de lado, mas em linhas gerais, num caso de desapropriação, a parte que está desapropriando tem que mandar para o proprietário 30 dias antes do julgamento uma carta com a melhor oferta que consegue fazer para tentar entrar em acordo. Se o proprietário recusar a oferta e decidir ir a julgamento, e se ele conseguir um veredito no valor 10% a mais do que a oferta de 30 dias, a parte que está desapropriando tem que pagar as custas de advogado do proprietário. Se ele não conseguir, ele tem que arcar com suas custas processuais.  No caso da driveway, nós conseguimos superar a oferta da cidade de Bothell (que foi em torno de $350,000) em 10%, daí eles (e não nosso cliente) que vão pagar a nossa conta. No caso da fábrica de gelo, a nossa oferta de 30 dias tinha sido $11,300,000.00, e como ele só conseguiu $11,400,000.00, menos de 10% de diferença, ele tem que pagar seus advogados.  
Que bobagem pagar os advogados quando você ganha $700,000.00, não é?  Posso dizer que não é bem assim. No caso da driveway, por exemplo, as custas de advogados (nós)  ficaram em torno de $250,000.00. Se você incluir os experts, cópias e mais cópias de “notebooks” com “exhibits”, escanear todas as “exhibits” para colocar no laptop para apresentação etc etc etc, o grand total ficou em torno de $400,000.00. Se você deduzir isso dos $700,000.00, o nosso cliente terminaria com o mesmo valor que a cidade de Bothell tinha oferecido. E mais uma úlcera, coitado. Nada justo.
Do meu lado, posso dizer que acho mais fácil representar o governo do que o proprietário. Veja bem, o governo tem um “budget” para gerenciar, mas ninguém fica perdendo o sono por conta do que os jurados vão decidir. A posição do nosso cliente governo é que, se os jurados decidiram pelo proprietário, bem, é porque nossos números estavam errados e o proprietário merece. Representar o proprietário é outra coisa. Já pensou, por exemplo, se os jurados decidem dar a ele os $300,000.00 que a cidade de Bothell estava propondo? E depois ainda recebe uma conta de $400,000.00 de advogado? É ou não é de dar úlcera em qualquer pessoa???