Se no julgamento anterior eu me vi cercada de engenheiros de tráfego compentindo por meio inch de diferença nos cálculos, nesse julgamento (sim, já estou no segundo) estou aprendendo tudo sobre fábricas de gelo, ou “ice plants”. E antes que comecem as piadinhas do tipo “onde já se viu fábrica de gelo em Seattle”, tenho que lembrar que passamos por um dos melhores verões que essa cidade já teve nos últimos 200 anos ou mais, o que quer dizer que a fábrica de gelo veio a calhar. Nesse julgamento estamos do lado do governo, que precisa comprar o terreno onde está a fábrica para passar o trilho do trem. O pequeno problema é saber o quanto o governo deve pagar pela tal fábrica de gelo, já que, convenhamos, o mercado de fábrica de gelo em Seattle não é dos mais fortes.
Além dos geeks tradicionais, que acham a coisa mais linda do mundo aqueles equipamentos de fazer gelo, temos outras figuras lendárias. Comecemos pelo dono da fábrica, um sujeito que herdou a tal fábrica do pai e que, segundo ele, costumava passar as férias com a família fazendo tours pelas fábricas de gelo dos Estados Unidos, além de outros países. Ele tem um museu de artefatos da cidade de Tacoma no apartamento dele, que por sinal fica em cima da fábrica. Ele é casado com uma ucraniânia, que ninguém nunca viu, e mora no tal apartamento com a esposa, a mãe dela que, segundo ele, não fala uma palavra em inglês, e três gatos. Há também o advogado do dono da fábrica, um senhor de quase 80 anos de idade. Por conta da idade avançada, ele não ouve direito e tem uma tendência a repetir as mesmas perguntas várias vezes, o que tem feito que o julgamento leve muito mais tempo do que deveria.
Ah, e tem a fábrica de gelo. Em julgamentos relacionados à desapropriação de uma propriedade, como é o nosso caso, leva-se os jurados para conhecer a propriedade para que eles tenham um pouco de contexto. Arrumamos um ônibus e lá se foram jurados, juíz e assistentes do juíz para fazer o tour da propriedade. Como no caso anterior o juíz preferiu que os advogados não participassem do tour, eu assumi que dessa vez também não iríamos. Para minha surpresa, no dia do tour fui informada que iríamos, sim, acompanhar o juíz e os jurados. O único problema da minha ignorância é que não fui apropriadamente vestida para uma fábrica de gelo. Daí que enquanto a maior parte das pessoas estava vestida com casaco de esqui, luvas e gorros, eu estava com meu terninho bastante apropriado para uma corte aquecida. O tour estava indo muito bem, até entramos no lugar onde eles fabricam gelo, um galpão enorme refrigerado a menos de zero graus Celsius. O galpão estava frio de doer. No final do tour minha mão estava roxa e meus ossos tremiam de tanto frio. Mas sobrevivi. E já aprendi um bocado sobre fábricas de gelo – se alguém por aí achar que é uma boa idéia abrir uma segunda fábrica de gelo na região, é só falar comigo ;-)






Eu assisti a um documentário de 2h sobre como fábricas de gelo funcionam e achei fascinante. Aliás, equipamento de manufatura me fascina muito mais do que programas de computador, provavelmente porque eu entendo muito menos.
Tenho que admitir, era fascinante sim. Os equipamentos eram enormes e era bem divertido olhar o gelo saindo, sendo cortado e embalado. Só era frio de doer ;-(