Eu admito, está na hora de crescer, parar com essa vida de viagem para a Europa todo ano, restaurantes bons toda semana, e vida comfortável em Seattle fazendo o que bem quero e entendo na hora que bem quero e entendo. Em suma, olha de olhar para o futuro e, quem sabe, ter um filho? Mas calma aí, eu sempre fui uma pessoa de planejar tudo na vida. E dessa vez não seria diferente.
Antes de mais nada, e antes de ter filho, eu preciso de uma religião. Meus amigos vão cair para trás com esse comentário, mas acho religião essencial na vida de uma pessoa. Acho fascinante e reconfortante o seguimento cego a dogmas, sem questionamentos. Eu cresci sem religião. Nunca fui batizada e só entrava em igreja para primeira comunhão de primos e amigos, casamentos, e ocasionalmente uma missa de sétimo dia aqui e ali (felizmente, poucas até hoje). Já tive crises na adolescência (ah, a adolescência) com medo de morrer, com medo do “unknown”, e sem ter nenhum comforto de que iria para o céu, para o inferno, voltar em forma de gato ou passar o resto da minha vida assombrando a casa em que moro. Hoje simplesmente não penso muito no assunto de morte, até porque todos próximos de mim estão muito bem de saúde, obrigado (uns melhores que outros), mas consigo me ver entrando em parafuso daqui a vários anos, quando as pessoas em torno de mim começarem a morrer. Eduardo é um pouco melhor que eu - não foi batizado mas cresceu num ambiente de crenças espíritas. Também nunca foi muito convicto da coisa, e acredito que minha influência “você jura que acredita nessa coisa de espírito?” não ajudou muito. Uma pena. Olhando para trás, acho que talvez eu devesse ter aproveitado a oportunidade, dado incentivo ao lado espírita dele, e pegado carona na crença espírita. A verdade é que, a essa altura do campeonato, depois de anos e anos de descrença e leituras descrentes, Eduardo e eu somo incapazes de acreditar em algo que não seja comprovado cientificamente.
Mas tudo isso são águas passadas. Agora temos que escolher uma religião, ou algo parecido. Tenho certa admiração pela doutrina espírita e pelos valores que passa, mas não é nada muito prático nos Estados Unidos. Há muito poucos centros espíritas e o povo por aqui não entende muito de doutrina espírita além do que passa em filmes de fantasma. Minha tendência e preferência vai para a religião cristã, que é o que a maioria segue nesse país. Mas e aí, que igreja seguir? Catolicismo ou protestantismo? Tenho um pezinho atrás com relação ao catolicismo, um pouco retrógrado. Daí que meu voto vai para o protestantismo. Seria uma escolha fácil e lógica, já que a maioria dos americanos frequenta a igreja protestante. Eduardo resolveu se abster da votação, daí que foi vitória de um voto só.
“Nossa, no dia que você parar de beber e começar a ir para a igreja todo domingo, o povo vai achar que você despirocou”, ponderou Eduardo. Por isso, meus amigos, fiquem avisados. Vou ser mão exemplar. Vou desistir do meu emprego e ficar em casa tomando conta de menino. Vou comprar uma mini-van (que vai ficar estacionada na porta de casa porque não passa na driveway) e levar os meninos para o baseball, aula de balé e, como não poderia deixar de ser, aula de piano. Me aguardem…





