Archive for October, 2009

Eleições

Estamos em época de eleições, mas você nem diria de tão quieta que anda a cidade, exceto por uns panfletos aqui e ali. A começar, não é obrigatório votar. Eu , como boa cidadã, me registrei para votar. Por sinal, quase perdi o último dia para registrar – eles permitem que você registre pelo correio ou online até um mês antes das eleições; depois disso você tem que ir registrar pessoalmente, o que não seria tão mal se o lugar de registro não ficasse lá no fim do mundo (Tukwila) e só funcionasse no horário mais incômodo para pessoas trabalhadoras como eu (8:30 a.m. – 4:30 p.m.).

Pronto, registro feito. Onde votar agora? Fácil, em casa. Há uma semana atrás Eduardo e eu recebemos nossa cédula de votação pelo correio. Isso mesmo, você preenche sua cédula, coloca no envelope que eles te mandam, e envia de volta pelo correio. Eu mesmo acabei de votar e me senti como uma estudante colando na prova. No Brasil votar é tão “big deal” – TEM que ser secreto, você TEM  que comparecer para votar, se você NÃO votar NÃO pode tirar passaporte – que me senti um tanto desconcertada com a facilidade de votar por aqui. Digamos, por exemplo, que você se enganou e votou para a pessoa errada. E agora, o que fazer? Fácil. De acordo com as instruções, é só riscar o nome da pessoa “erroneamente” votada e escolher outra pessoa. Bem, aqui eles consideram isso um “momento de relapso”, mas de onde eu venho isso se chama voto nulo. E se você perdeu sua cédula? Facílimo, é só ligar para eles e pedir outra. Alguém aí pensou em fraude? Eles também pensaram, daí que você tem que assinar uma declaração e enviar com sua cédula afirmando que você é cidadão, que é mentalmente competente, que você não está votando duas vezes, que você não está votando por outra pessoa, blah blah blah. Pronto, problema resolvido. Não sei como eles não implementam esse sistema de voto pelo correio com declaração no Brasil.

Eu já falei dos write-ins? Quando vi minha cédula, algumas posições tinha duas opções: Fulano de Tal ou opção em branco, com denominação de write-in. De acordo com o Wikipedia, write-in é um candidato numa eleição cujo nome não aparece na cédula (por não ter se registrado etc) mas pelo qual você pode votar escrevendo o nome. Também é uma ótima oportunidade para votar no Mickey Mouse para xerife do King County.

Eu já falei no que temos que votar? Algumas opções são mais polêmicas e fáceis de votar, como prefeito de Seattle, aprovar Referendum 71 (que garante a casais homossexuais os mesmos direitos de casais heterossexuais casados no papel), reprovar Iniciativa 1033 (mais uma péssima idéia do péssimo Tim Eyman de limitar o crescimento do estado/county/cidade ao crescimento populacional/inflacionário, justamente num ano de péssima economia, para assim você morar numa péssima cidade sem perspectiva de crescimento). Mas tem outras, como por exemplo, nas três posições abertas dos “Commissioners” do Port of Seattle, que você nem tem idéia do que faz. Ou melhor ainda, se você aprova ou rejeita o “Charter Amendment No. 2″, no qual ele te pergunta se  o “King County Charter Section 475, relating to preparation of work programs and requested allotments and to appropriation transfers, [shall] be repealed”? Eu sei lá! Sim? Não? Tanto faz?

A nossa sorte é que o Stranger (um jornalzinho grátis da região) publica um “cheat sheet” com indicações para quem votar e os motivos pelos quais você deve votar naquelas pessoas. Aliás, quase todo jornal por aqui tem suas “indicações”, bem diferente do Brasil, onde os meios de comunicação são totalmente e completamente imparciais. Com tanta facilidade para votar – no comforto do seu lar, com “cheat sheet” do Stranger e tudo mais – eu só não sei porque é que as pessoas não votam com mais frequência por aqui. Vai entender.

Um Dia A Casa Alaga

Antes de comprar minha casa de 1902 com basement, eu adorava chuva. E quanto mais forte melhor. Achava lindo ficar dentro de casa, no quentinho e gostoso, olhando a chuva cair lá fora.  Acontece que basement, ainda mais em casa antiga, tem muito problema de infiltração. Daí que acordamos no sábado pensando que talvez devessemos checar o basement, ainda mais depois da chuvarada de sexta à noite. Pois bem, parte do basement estava alagado. Ok, alagado não é a palavra correta porque dá a entender que estava tudo boiando no basement. A verdade foi menos dramática:  o carpete estava encharcado perto da porta do escritório.

Quando resolvemos construir no basement, fizemos um serviço para evitar infiltração de água pela parede. O serviço consistiu em cavar uma vala no chão do basement, rente à parede. Se houvesse infiltração pela parede, a água cairia nessa vala e iria para uma bomba, que jogaria a água para fora da casa. O processo também envolveu colocar um “vapor barrier” nas paredes, para que o drywall não ficasse molhado caso haja infiltração. Porém, contudo e todavia, não fizemos o serviço na parede onde instalamos as portas que dão para o fundo da casa, já que aquela parte era nivelado com o fundo, e não abaixo da terra. Acontece que o povo que fez o concreto no fundo nivelou o concreto rente às portas, quando o correto seria que o concreto ficasse abaixo do nível da portas. Suspeitamos que a água tenha entrado por uma fresta da porta do escritório, mas ainda não identificamos o problema exato. Fizemos uns paliativos, secamos o carpete com ventiladores, e estamos esperando a próxima chuva para observar o fenômeno com mais cuidado.

Há umas três ou quatro semanas atrás, percebemos que o teto da sala de jantar estava molhado, bem abaixo do nosso banheiro. Chamamos o contractor que fez a reforma para dar uma olhada, já que, afinal de contas, o banheiro tinha sido construído por ele. Depois de abrir um buraco no teto para observar o problema, ele não achou nenhum cano vazando. Daí a conclusão dele foi que aquele aconteceu porque o povo que fez o hardwood, quando estava andando lá em cima, fez isso e aquilo que causou aquele vazamento seis meses depois. Isso me fez lembrar o quanto eu não sinto falta de lidar com contractors: a implicância, a chateação, o tudo. Dali a duas semanas, as tomadas do nosso quarto pararam de funcionar. Antes de chamar o contractor de novo, porque afinal de contas a fiação do nosso quarto foi toda trocada na reforma, resolvemos tentar achar o problema, até porque eu não queria ouvir que a culpa era do povo do hardwood. Abrimos todas as tomadas e depois que descobrimos que o problema não seria tão fácil de consertar (não levou muito tempo para chegarmos a tal conclusão), desistimos de resolver o problema e ligamos para os nossos contractors. Dessa vez o problema foi resolvido sem muito drama.

E sabe o que eu percebi dessas complicações todas? Que tudo que deu problema, absolutamente tudo (nosso banheiro, tomada do quarto, porta do escritório), foram das coisas novas que foram reformadas, e não das coisas antigas. O que prova que não se fazem mais casa como antigamente ;-(

A Fábrica de Gelo

Se no julgamento anterior eu me vi cercada de engenheiros de tráfego compentindo por meio inch de diferença nos cálculos, nesse julgamento (sim, já estou no segundo) estou aprendendo tudo sobre fábricas de gelo, ou “ice plants”. E antes que comecem as piadinhas do tipo “onde já se viu fábrica de gelo em Seattle”, tenho que lembrar que passamos por um dos melhores verões que essa cidade já teve nos últimos 200 anos ou mais, o que quer dizer que a fábrica de gelo veio a calhar. Nesse julgamento estamos do lado do governo, que precisa comprar o terreno onde está a fábrica para passar o trilho do trem. O pequeno problema é saber o quanto o governo deve pagar pela tal fábrica de gelo, já que, convenhamos, o mercado de fábrica de gelo em Seattle não é dos mais fortes.

Além dos geeks tradicionais, que acham a coisa mais linda do mundo aqueles equipamentos de fazer gelo, temos outras figuras lendárias. Comecemos pelo dono da fábrica, um sujeito que herdou a tal fábrica do pai e que, segundo ele, costumava passar as férias com a família fazendo tours pelas fábricas de gelo dos Estados Unidos, além de outros países. Ele tem um museu de artefatos da cidade de Tacoma no apartamento dele, que por sinal fica em cima da fábrica. Ele é casado com uma ucraniânia, que ninguém nunca viu, e mora no tal apartamento com a esposa, a mãe dela que, segundo ele, não fala uma palavra em inglês, e três gatos. Há também o advogado do dono da fábrica, um senhor de quase 80 anos de idade. Por conta da idade avançada, ele não ouve direito e tem uma tendência a repetir as mesmas perguntas várias vezes, o que tem feito que o julgamento leve muito mais tempo do que deveria.

Ah, e tem a fábrica de gelo. Em julgamentos relacionados à desapropriação de uma propriedade, como é o nosso caso, leva-se os jurados para conhecer a propriedade para que eles tenham um pouco de contexto. Arrumamos um ônibus e lá se foram jurados, juíz e assistentes do juíz para fazer o tour da propriedade. Como no caso anterior o juíz preferiu que os advogados não participassem do tour, eu assumi que dessa vez também não iríamos. Para minha surpresa, no dia do tour fui informada que iríamos, sim, acompanhar o juíz e os jurados. O único problema da minha ignorância é que não fui apropriadamente vestida para uma fábrica de gelo. Daí que enquanto a maior parte das pessoas estava vestida com casaco de esqui, luvas e gorros, eu estava com meu terninho bastante apropriado para uma corte aquecida. O tour estava indo muito bem, até entramos no lugar onde eles fabricam gelo, um galpão enorme refrigerado a menos de zero graus Celsius. O galpão estava frio de doer. No final do tour minha mão estava roxa e meus ossos tremiam de tanto frio. Mas sobrevivi. E já aprendi um bocado sobre fábricas de gelo – se alguém por aí achar que é uma boa idéia abrir uma segunda fábrica de gelo na região, é só falar comigo ;-)

Em Busca De Uma Religião

Eu admito, está na hora de crescer, parar com essa vida de viagem para a Europa todo ano, restaurantes bons toda semana, e vida comfortável em Seattle fazendo o que bem quero e entendo na hora que bem quero e entendo. Em suma, olha de olhar para o futuro e, quem sabe, ter um filho? Mas calma aí, eu sempre fui uma pessoa de planejar tudo na vida. E dessa vez não seria diferente.

Antes de mais nada, e antes de ter filho, eu preciso de uma religião. Meus amigos vão cair para trás com esse comentário, mas acho religião essencial na vida de uma pessoa.  Acho fascinante e reconfortante o seguimento cego a dogmas, sem questionamentos. Eu cresci sem religião. Nunca fui batizada e só entrava em igreja para primeira comunhão de primos e amigos, casamentos, e ocasionalmente uma missa de sétimo dia aqui e ali (felizmente, poucas até hoje). Já tive crises na adolescência (ah, a adolescência) com medo de morrer, com medo do “unknown”, e sem ter nenhum comforto de que iria para o céu, para o inferno, voltar em forma de gato ou passar o resto da minha vida assombrando a casa em que moro. Hoje simplesmente não penso muito no assunto de morte, até porque todos próximos de mim estão muito bem de saúde, obrigado (uns melhores que outros), mas consigo me ver entrando em parafuso daqui a vários anos, quando as pessoas em torno de mim começarem a morrer. Eduardo é um pouco melhor que eu - não foi batizado mas cresceu num ambiente de crenças espíritas. Também nunca foi muito convicto da coisa, e acredito que minha influência “você jura que acredita nessa coisa de espírito?” não ajudou muito. Uma pena. Olhando para trás, acho que talvez eu devesse ter aproveitado a oportunidade, dado incentivo ao lado espírita dele, e pegado carona na crença espírita. A verdade é que, a essa altura do campeonato, depois de anos e anos de descrença e leituras descrentes, Eduardo e eu somo incapazes de acreditar em algo que não seja comprovado cientificamente.

Mas tudo isso são águas passadas. Agora temos que escolher uma religião, ou algo parecido.  Tenho certa admiração pela doutrina espírita e pelos valores que passa, mas não é nada muito prático nos Estados Unidos. Há muito poucos centros espíritas e o povo por aqui não entende muito de doutrina espírita além do que passa em filmes de fantasma. Minha tendência e preferência vai para a religião cristã, que é o que a maioria segue nesse país.  Mas e aí, que igreja seguir?  Catolicismo ou protestantismo? Tenho um pezinho atrás com relação ao catolicismo, um pouco retrógrado. Daí que meu voto vai para o protestantismo. Seria uma escolha fácil e lógica, já que a maioria dos americanos frequenta a igreja protestante. Eduardo resolveu se abster da votação, daí que foi vitória de um voto só. 

“Nossa, no dia que você parar de beber e começar a ir para a igreja todo domingo, o povo vai achar que você despirocou”, ponderou Eduardo. Por isso, meus amigos, fiquem avisados. Vou ser mão exemplar. Vou desistir do meu emprego e ficar em casa tomando conta de menino. Vou comprar uma mini-van (que vai ficar estacionada na porta de casa porque não passa na driveway) e levar os meninos para o baseball, aula de balé e, como não poderia deixar de ser, aula de piano. Me aguardem…