Geek é dessas coisas que é difícil de definir mas você reconhece um assim que bate os olhos. Eu sempre achei que eu tivesse uma quedinha por homem de farda, mas esse último julgamento do qual participei veio me provar que, de fato, eu sou mesmo apaixonada pelos geeks.
Uma das nossas testemunhas era um engenheiro de tráfego. Tentávamos provar que a driveway do nosso cliente (essas driveways são o pesadelo da minha vida) ficaria terrivelmente afetada depois da desapropriação que a cidade de Bothell queria fazer de parte da driveway para alargar a rodovia, e que o prejuízo do nosso cliente justificaria o valor monetário que estávamos pedindo, mais de $1 milhão de dólares (a cidade de Bothell só queria pagar $300 mil). O nosso engenehrio de tráfego estava lá para dizer que o mundo acabaria depois que a driveway fosse modificada, e os engenheiros da cidade estavam lá para dizer que nosso cliente estava delirando e que a driveway depois da aquisição ficaria muito melhor do que a que ele tinha antes.
O nosso engenheiro de tráfego era um geek. Conversava de muita pouco coisa além de rodovias, driveways, curvas … íamos todo almoçar juntos e as poucas vezes que fui conversando com ele o papo era assim mesmo:
Ele: “Olha só essa rampa para cadeira de rodas, totalmente descentralizada em relação a rampa do outro lado da rua. Um absurdo.”
Eu (concentrada no meu pé que estava doendo com o sapato de salto): “Ah…”
Ele: “E aquela driveway vai ficar terrivelmente afetada depois que eles alargarem a pista, você vai ver!”
Eu (pensando mais ainda no meu pé que continuava doendo): “Ah…”
Os engenheiros da cidade testemunharam, nosso engenheiro testemunhou, depois a cidade teve a oportunidade de fazer o reply com os engenheiros deles (no qual um dos engenheiros fez vários cálculos ao vivo para os jurados, que tentavam a todo custo ficar de olhos abertos), e no final tínhamos o direito de fazer o reply do reply. Veja bem, o reply do reply era a última parte do julgamento, que por sinal estava levando mais tempo do que o antecipado; os jurados já estavam ficando inquietos e mandavam perguntar ao juíz de vez em tempo quando o julgamento terminaria. Colocamos nosso engenheiro no banco das testemunhas na quinta de manhã, prometendo ao juíz que na quinta à tarde nós terminaríamos nossa parte; o tempo estava passando e tínhamos pouco tempo. Nosso engenheiro queria porque queria porque queria refazer os cálculos do outro engenheiro, “completamente errados” na opinião dele. Nisso ele vai ao quadro e com aquela confiança matemática típica dos geeks começa a refazer os cálculos do outro engenheiro. Um minuto, dois minutos, três minutos … nós, advogados pouco geeks, começamos a nos preocupar com o tempo mas totalmente esperançosos que o engenheiro fosse ganhar nosso caso ao mostrar o absurdo dos cálculos do engenheiro da outra parte. Depois de tudo calculado, nosso advogado pergunta:
Advogado: “E aí, qual a diferença do seu cálculo para o do engenheiro da cidade?”
Ele: “A diferença é de meio inch!” (approximadamente 1 centímetro)
Meio inch naquele contexto não era nada. Enquanto nós abaixávamos a cabeça esperando levar bronca do juíz por ter gastado tanto tempo para provar nada, ele estava lá totalmente orgulhoso por ter provado a quem quisesse ter prestado atenção que o engenheiro da cidade estava totalmente errado. E foi naquele exato momento que eu me apaixonei pelo engenheiro de tráfego – um homem nos 40′s, levemente mais alto que eu, meio careca e, claro, óculos. E é por isso que eu gosto tanto de geeks, eles são inteligentes e ainda por cima muito sexy. Ai, ai …






Nara, vai no “supply room” e pega uma caneta nova. Pronto? Agora espeta ela no braço umas vinte vezes. Não sei o porquê, mas acho que vc vai gostar.
Eduardo, se vc quiser ombro pra chorar avisa.
Eu entendo Nara, eu tambem adoro geek. Mas por causa de meio inch de diferenca?
Ok, eu admito que usei um pouco de licenca poetica no post. Nao me lembro exatamente da diferenca dos calculos; usei o meio inch para enfatizar a historia ja que no contexto (um driveway com mais de 30 pes de comprimento) a diferenca era irrisoria. Mas justica seja feita, entrvistamos os jurados depois (podemos fazer isso depois que o caso se encerra para receber feedback) e eles ficaram bem impressionados com o conhecimento do nosso engenheiro de trafico. Ponto para os Geeks!