O SIFF (Seattle International Film Festival) comecou dia 22 de maio. Dentre os tantos filmes passando, recomendo (demais) assistir ao filme “They Killed Sister Dorothy“, que vai estar passando no Harvard Exit dia 27 de maio as 7:00 da noite, e dia 28 de maio as 4:30 da tarde.
Irma Dorothy era uma missionaria que ja morava no Brasil ha mais de 30 anos, trabalhando com populacoes indigenas e trabalhadores sem terra na regiao do Amazonas. Em fevereiro de 2005 ela foi assassinada no Para. Foi uma repercussao muito grande na epoca, acredito ate pelo fato dela ser uma “missionaria americana”, quando na verdade ela ja tinha ate se naturalizado brasileira. O meu escritorio antigo representava os irmaos de Dorothy Stang, e eu sempre ajudava nas traducoes (ainda ajudo, apesar de nao trabalhar mais la). Nosso papel era so acompanhar o desenrolar do processo e fazer pressao quando necessario – mandar cartas, comparecer aos julgamentos (nossos advogados ja foram para os julgamentos no Para varias vezes), conversar com ONGs e a Embaixada Brasileira, etc. Ja foram julgados e condenados dois pistoleiros e o intermediario que contratou os pistoleiros. Um dos mandantes tinha sido condenado ha mais de 20 anos de prisao, mas foi julgado de novo (uma pessoa condenada a mais de 20 anos de prisao no Brasil tem direito a outro julgamento, uma total perda de tempo do Poder Judiciario) e, surpresa, foi absolvido no segundo julgamento (a unica boa noticia dessa historia toda e que entraram com um projeto de lei para acabar com essa historia de segundo julgamento). Os pistoleiros, que no inicio tinham denunciados os mandantes, mudaram completamente a historia deles. Se foi por dor na consciencia por estarem involvendo inocentes, porque estao sendo ameacados, ou porque foram pagos para mudarem o testemunho, isso e um misterio…
Eu ja vi o filme, porque o meu escritorio conseguiu uma copia com o diretor. Os advogados do escritorio ficaram assombrados e abobalhados com a intimadacao de testemunhas e o funcionamento do Poder Judiciario. Para mim, que estudei Direito, me pareceu tudo muito normal. O que mais me chamou a atencao foi que, apesar de tudo se passar no Para, um lugar que ate para brasileiros e considerado meio ”terra sem lei”, a sensacao e de que poderia ter acontecido e qualquer lugar do Brasil. A historia e mais ou menos assim: o governo implementa um projeto (nesse caso, de distribuicao de terra para trabalhadores rurais), mas nao assegura verba nem estabelece metas; ha varios conflitos em decorrencia desse projeto, e desse conflitos pessoas morrem (de acordo com a CPT, de 1985 a 2006 houve 1104 conflitos no campo, com 1464 mortes); os orgaos fiscalizadores nao tem dinheiro nem interesse de resolver os conflitos; a policia e o Poder Judiciario tem menos interesse ainda (desses 1104 conflitos, somente 85 foram a julgamento); ah, ainda tem a burocracia. Correndo o risco de estragar o final de filme, tenho que dizer que esse tem um final feliz. Ele termina com o primeiro julgamento do mandante, quando ele foi condenado. Ao saber da sentenca, o povo sai a rua para comemorar … ao som do trio eletrico, ou melhor, da ”kombi eletrica”. Nossa, e muito bom saber que o Brasil esta avancando tanto na questao de direitos humanos, justica social, e etica. E ou nao e? 





